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sexta-feira, 4 de março de 2022

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Carta Maior [Saul Leblon]: A mão da rua

Em sucessivos plebiscitos, a população islandesa decidiu deixar a banca quebrar, estatizou a sobra e colocou banqueiros na cadeia.

por: Saul Leblon

A Islândia é uma nação diminuta perto do Brasil, uma espécie de Santa Catarina de gelo, com população menor que a de Jundiaí. Apenas 320 mil habitantes.

Se é possível dizer que essas características lhe dão flexibilidade para soluções impensáveis aos ‘baleias’ -- viver de turismo e pesca, por exemplo -- também é verdade que o seu poder de barganha é infinitamente menor.

Guiar-se pelo imperativo dos mercados seria o previsível no seu caso, deixando-se levar de forma mais ou menos passiva pela maré dos interesses graúdos que dominam a cena global.

Não foi o que ocorreu na crise de 2008.

Driblar a fatalidade de uma receita de arrocho em condições de estresse econômico e político extremo, eis aí uma dimensão que conecta as singularidades dessa ilha polar às urgências dos trópicos nos dias que correm.

A crise mundial de 2008 pegou a economia e a sociedade islandesa no contrapé de uma vulnerabilidade extrema, confrontando-a, entre outros, com interesses bancários britânicos, alemães e holandeses.

A Islândia não tinha mais nada a perder – e isso não é retórico. A banca do país mergulhara de cabeça na farra financeira da década e havia acumulado o equivalente a uma dúzia de PIBs em operações e compromissos tornados impagáveis do dia para a noite.

Quando a ciranda parou de girar com a explosão da bolha imobiliária nos EUA, os credores externos – bancos europeus —  quiseram  empurrar a fatura para a população.

A ideia era transformar a Islândia num duto conectado à central de sucção da finança global, que assim resolveria  a sua parte no imbróglio escalpelando a sociedade -- como de fato tem sido feito com vários outros países.

O pagamento seria em moeda sonante e em espécie:  alguns milhares de dólares per capita em impostos, cortes de gastos,  privações, privatizações, demissões e o que mais fosse necessário para servir ao principal e aos juros por longos dez anos a quinze anos.

A nota dissonante suficientemente conhecida é que a população islandesa não concordou.

Em vez de se entregar à mastigação ela resolveu ajustar a engrenagem a seu favor, e não aos desígnios da banca ou de seus acionistas.

Ao recusar o matadouro inverteu a sentença: em sucessivos plebiscitos, a população decidiu deixar a banca quebrar, estatizou a sobra e colocou banqueiros na cadeia.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Rede Brasil Atual: Para empregados da CEF, abertura de capital satisfaz apenas interesses privados

Rede Brasil Atual: Para empregados da CEF, abertura de capital satisfaz apenas interesses privados

Representantes dos trabalhadores do banco apontam que manter-se integralmente público é o caminho para evitar as mesmas especulações que mantêm setor financeiro em crise desde 2008

por Redação da RBA

São Paulo – Para os empregados da Caixa Econômica Federal (CEF), o balanço da empresa em 2014, divulgado na última quinta-feira (12), é mais um claro indicativo a contrariar a tese de abertura de capital da instituição, como vem sendo ventilado pela mídia tradicional desde o fim do ano passado. Entre as informações destacadas do balanço anual, o saldo das operações de crédito atingiram R$ 605 bilhões, sendo quase R$ 340 bilhões na área habitacional. O lucro líquido foi de R$ 7,1 bilhões.

"Números como estes mostram que o banco continua ganhando espaço no mercado", conclui o presidente da Federação Nacional dos Empregados da CEF (Fenae), Jair Pedro Ferreira.

No ano passado, o banco ampliou sua carteira em cerca de 6 milhões de novos clientes, o que fez o número de correntistas e poupadores chegar a 78,3 milhões. A Caixa é a responsável ainda por administrar atualmente mais de 132 milhões de contas ativas do FGTS.

Para a Fenae, os dados deixam claro a quem interessa que a empresa deixe de ser integralmente pública. "Enquanto o mercado financeiro acumula perdas desde a crise de 2008, a Caixa tem 'atropelado' o setor privado, incomodando e despertando a cobiça. De janeiro a dezembro, o banco injetou quase R$ 700 bilhões na economia do país, o que corresponde a aproximadamente 13,4% do PIB. Tudo isso significa que a Caixa 100% pública é o melhor modelo para os brasileiros", argumenta Ferreira.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Rede Brasil Atual: Hereda afirma que é contra a abertura de capital da Caixa

Rede Brasil Atual: Hereda afirma que é contra a abertura de capital da Caixa

Presidente do banco diz que se trata de opinião pessoal, mas diz ter discutido intensamente o assunto com a presidenta Dilma, que reconhece o papel social e estratégico da Caixa para o Brasil

por Paulo Donizetti de Souza, da RBA

São Paulo – O presidente da Caixa, Jorge Hereda, afirmou que é contra a abertura de capital da Caixa, como foi cogitado no final do ano pelo governo. Há 154 anos, a União é o único controlador da instituição financeira. Durante entrevista coletiva concedida hoje (12) em São Paulo para divulgar dados do balanço de 2014, Hereda ressalvou tratar-se de sua posição pessoal, mas admitiu ter discutido intensamente o assunto com a presidenta Dilma Rousseff. Segundo ele, a presidenta tem plena noção do papel social do banco e de sua importância estratégica para o país, sobretudo por seu potencial de promoção de políticas anticíclicas em meio à instabilidade econômica global.

“A questão é: no Brasil, cabe ou não cabe uma instituição financeira 100% público? Em minha opinião, cabe”, disse. Segundo o executivo, diante da situação instável da economia mundial, é muito importante dispor de um instrumento capaz de liderar políticas anticíclicas de enfrentamento da crise. “Algum analista econômico já calculou qual teria sido o PIB do país se os bancos públicos tivessem se comportado como os bancos privados nos últimos anos?”, questionou. Para ele, no sistema bancário brasileiro, muito concentrado, os bancos públicos impõem uma “concorrência” que não seja movida “à base da busca pelo lucro exacerbado levada às últimas consequências”.

Jorge Hereda enfatizou ainda que sua posição não é movida por preconceito contra o capital privado ou por opção ideológica. “É questão de lógica, é 100% racionalidade”, defendeu. “A presidenta tem total noção papel social do banco como agente de políticas públicas e está levando isso em consideração.” A decisão mais provável a ser tomada, pelo que se pode apurar da faça de Hereda, é que seja aberta à capitalização a área de seguros da Caixa, a qual já tem a participação de agentes privados – o banco público controla 52% de sua empresa de seguros e vê na abertura de capital a possibilidade de ampliar sua participação no mercado brasileiro e, em contrapartida, ampliar a participação dos resultados do segmento de seguros no balanço global da instituição.

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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Rede Brasil Atual: Dieese aponta contradição entre altos lucros e demissões no setor bancário

Rede Brasil Atual: Dieese aponta contradição entre altos lucros e demissões no setor bancário

por Redação RBA

São Paulo – O diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio critica o comportamento do setor bancário, que obteve altos lucros em 2014, mas fechou 5 mil postos de trabalho no setor. Os dados constam do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. O economista observa que o saldo negativo do setor só não foi pior porque a Caixa Econômica Federal abriu 2.600 novas vagas.

Para Ganz Lúcio, o resultado é uma "contradição", uma vez que o desempenho do sistema bancário brasileiro não justifica redução de postos de trabalho. Entre janeiro e setembro de 2014, os cinco maiores bancos do país tiveram lucro líquido de R$ 44 bilhões, destaca.

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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Agência Brasil: Banco Central: atividade econômica cresce 0,4% em setembro

Uai, não está tudo tão ruim?!

Agência Brasil: Banco Central: atividade econômica cresce 0,4% em setembro

  • 17/11/2014 09h31
  • Brasília
Mariana Branco - Repórter da Agência Brasil Edição: José Romildo


A atividade econômica apresentou crescimento de 0,4% em setembro, percentual já dessazonalizado (ajustado para o período). É o terceiro mês consecutivo em que o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), divulgado hoje (17), registra aumento. Em julho, o crescimento dessazonalizado foi 1,5%. Em agosto, houve alta de 0,27%

Na comparação com agosto de 2013, o índice apresenta queda dessazonalizada de 0,24%.No acumulado do ano, em valores já ajustados, houve aumento de 0,01% na atividade econômica. Considerando os últimos 12 meses, o aumento do IBC ficou em 0,6%.

O IBC-Br é uma forma de avaliar a evolução da atividade econômica brasileira. O índice incorpora informações sobre o nível de atividade dos três setores da economia: indústria, comércio e serviços e agropecuária.

Origem.

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Carta Maior[Saul Leblon]: Perguntas que cruzam os ares do Brasil


Perguntas que cruzam os ares do Brasil

Durante três décadas, o conservadorismo e o dinheiro desregulado despejaram sobre a humanidade seu arroto de peru, submetendo-a a uma dieta rala de mortadela, como requisito ao ingresso no reino dos mercados virtuosos e autorreguláveis.

Mais de US$ 12 trilhões depois, despendidos no resgate de instituições e bancos falidos desde 2008, ademais de 30 milhões de empregos queimados na fogueira ortodoxa, o mundo aspira ao passo seguinte da história.

A tarefa cabe à esquerda, aos democratas e progressistas; seus pés tateiam entre o desarmamento ideológico e a crise econômica mais grave desde 1929. Dada a pinguela estreita da relação de forças, qual será a macroeconomia capaz de inscrever no desenvolvimento a salvaguarda inadiável que resguarde o futuro com um crescimento que produza justiça social e preserve os bens comuns da humanidade?

O olhar da esperança mira as nações do sul. Com as deficiências e hesitações sabidas, o Brasil de Dilma, a Argentina de Cristina, entre outros, emergem como os mais aptos a uma travessia que ensaiaram na forma de uma transição branda antes de 2008, e agora urge acelerar.

Desafios empilhados em distintas frentes remetem a um mesmo imperativo reordenador das relações entre o Estado, o mercado e a democracia : trata-se de suprimir espaços à incerteza gerada pelo vale tudo do dinheiro; regular a economia, o investimento, os bancos, as comunicações, o uso dos recursos que formam as bases da vida na terra.

A desordem neoliberal não cessa de cobrar urgências. Uma delas remete diretamente à agenda que deveria centralizar o debate político no horário eleitoral que começou nesta 3ª feira: relatório da ONU informa que a América Latina e o Caribe formam a região mais urbanizada do mundo: 80% da população local (588 milhões de pessoas) vive em cidades.

O Brasil lidera e exorbita: 85% dos habitantes estão em áreas urbanas; serão 90% até 2020. A região tem conseguido ainda assim obter avanços sociais, mas há limites estruturais acantonados na próxima esquina do crescimento. O economista Dan Rodrik em artigo recente lembra que o avanço tecnológico limitará cada vez mais a capacidade da indústria de absorver a mão de obra disponível nas cidades. "

Será impossível, para a próxima geração de países industrializados", diz ele, "deslocar 25% ou mais de sua força de trabalho para atividades de manufatura, como fizeram as economias do Leste Asiático" (a China em especial). A urbanização selvagem, fruto de ditaduras e desequilíbrios fundiários seculares, encerraria assim um alívio: no Brasil, a exemplo de outros, o mal está feito, trata-se agora de cuidar das cidades, fortalecer o binômio industrialização/educação como requisito de produtividade e eficiência capaz de impulsionar um poderoso setor de serviços. O consolo só é verdadeiro em parte.

Nação mais urbanizada entre os gigantes do planeta, com 85% da população nas cidades, o Brasil ainda preserva quase uma Argentina no campo, com mais de 30 milhões de pessoas. Esse pedaço importante do país está reunido em Brasília neste momento para debater o seu destino (leia nesta pág.).

No Encontro Unitário dos Trabalhadores, Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas e no horário político eleitoral, iniciado nesta 3ª feira, entrelaçam-se as duas principais perguntas de uma transição que tem pressa para começar: qual a política urbana capaz de construir o pós-neoliberalismo nas cidades? Qual a reforma agrária capaz de devolver pertinência a essa bandeira no século XXI? E, sobretudo, que forças reúnem desassombro e competência para agregar as respostas num projeto crível de futuro que conquiste corações e mentes da sociedade em nosso tempo? Origem.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Libor, Carta Maior acompanha o escândalo

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"Por mais que Obama tente ser neutro ou queira apoiar Wall Street, o candidato deles é Romney. Penso que qualquer esperança de Obama em conseguir fundos de Wall Street, se ele empurrar para debaixo do tapete o caso da Libor, será uma derrota em dose dupla. Além do fato de não ganhar os recursos, eles estão comprometidos com a agenda republicana de não regular. A análise é de Michael Greenberger, professor de direito financeiro nos EUA."
Obama processará os grandes bancos por manipulação da Libor?


"Os 16 bancos envolvidos na fixação da Libor permanecem sob investigação federal nos EUA e em outros países. E todos são alvos de ações coletivas movidas pela cidade de Baltimore. A parte queixosa alega que a conspiração para diminuir a taxa Libor exacerbou os efeitos da crise financeira de 2008, forçando cortes mais profundos pelo setor público. E um grupo de procuradores está elaborando uma ação coletiva semelhante."
Fraude da Libor desencadeia investigações e ações contra bancos

domingo, 12 de agosto de 2012

Le Monde Diplomatique Brasil: A lei dos canalhas

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A lei dos canalhas

Nosso mundo está infestado de dados arbitrários ou distorcidos, em nome dos quais populações inteiras são martirizadas, como na Espanha

por Serge Halimi

Em uma das cenas cult do filme de Michael Curtis, Casablanca(1942), o capitão Renault, chefe da polícia local, está rodeado por seus homens e, ao interditar o café de Rick (Humphrey Bogart), proclama: “Estou chocado, realmente chocado em saber que vocês jogam por dinheiro aqui!”. Um instante depois, um crupiê estende um maço de notas ao policial: “Sua parte, senhor”. O capitão agradece com um sussurro, embolsa o dinheiro e ordena: “Todos para fora, rápido!”.

No escândalo financeiro que envolve a instauração fraudulenta de uma taxa interbancária britânica – a London Interbank Offered Rate (Libor) –, é difícil identificar o policial desonesto, pois os candidatos ao papel são muitos. Todos os dias, uma média de vinte grandes estabelecimentos financeiros (Barclays, Deutsche Bank, HSBC, Bank of America etc.) define o valor da Libor, que serve de base para transações que somam cerca de US$ 800 bilhões (não, esse número não é um engano do autor), sobretudo no mercado de derivativos.1 Os valores em questão são tão exorbitantes que incentivam a imprensa não financeira a concentrar sua atenção em problemas menores, mas de escala humana: pais que recebem auxílio do governo sem garantir a presença dos filhos na escola, assalariados gregos que complementam a baixa renda trabalhando no mercado negro. A indignação se volta contra essas pessoas, que também acabam absorvendo a cólera destinada aos governantes e ao Banco Central Europeu.

Embora a manipulação da Libor pareça complicada, ela é tão esclarecedora como a cena de Casablanca. Preocupados em melhorar sua saúde financeira e alavancar seus fundos no mercado, os grandes bancos, cuja palavra era digna de confiança, diminuíram suas taxas de empréstimo ao longo dos anos. Essa taxa declarada determinou em seguida a da Libor e, portanto, a dos futuros empréstimos. Ao “adoecer” pela “descoberta” de fraude em seu banco, o patrão do Barclays pediu demissão no dia 3 de julho. O diretor do Banco da Inglaterra também diz ter entendido há apenas algumas semanas a fraude em questão.2

“Chocado, realmente chocado em descobrir” a pólvora? O Barclays e o Banco da Inglaterra não devem ler a imprensa financeira, pois no dia 16 de abril de 2008 o Wall Street Journal havia publicado um artigo intitulado “Banqueiros questionam uma taxa-chave”. Primeiro parágrafo: “Um dos barômetros mais importantes da saúde do mundo financeiro poderia enviar sinais falsos”.

Nosso mundo está infestado de dados arbitrários ou distorcidos (Libor, “regra de ouro”, nível da dívida ou limites para o déficit público...), em nome dos quais populações inteiras são martirizadas, como na Espanha (ver texto "O gato de Felipe González" - Edição 61 Le Monde Diplomatique Brasil). Os que infligem esses castigos com mais crueldade são os mesmos que mantêm uma auréola de respeito por serem presidentes de um banco central ou de uma agência de risco. Quatro anos após a eclosão de uma das maiores crises financeiras da história, contudo, a utilidade social desses organismos está abalada. Origem.

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).

1 Ler Ibrahim Warde, “La dérive des nouveaux produits financiers” [A deriva dos novos produtos financeiros], Le Monde Diplomatique, jul. 1994.
2 Cf. “Missteps on Libor doomed top executives at Barclays” [Erros na Libor condenaram altos executivos da Barclays], The Wall Street Journal, Nova York, 15 jul. 2012.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Outras Palavras: Caso Libor: corrupção na alta finança internacional


Outras Palavras
Caso Libor: corrupção na alta finança internacional

Por Immanuel Wallerestein | Tradução: Daniela Frabasile

Desde 4 de julho, os maiores jornais do mundo contam que há um “escândalo” envolvendo algo chamado Libor. Legisladores, dirigentes de bancos centrais e autoridades judiciais dizem o mesmo. Antes disso, poucas pessoas, fora do grupo que se interessa por bancos, tinha ouvido falar da Libor. De repente, nos disseram que os maiores bancos da Grã-Bretanha, Estados Unidos, Suíça, Alemanha, França – e provavelmente um grande número de outros países – estavam envolvidos em ações supostamente “fraudulentas”.

Além disso, explicaram-nos que não era questão de centavos. Derivativos financeiros de centenas de trilhões de dólares oscilam de acordo com a taxa Libor. A acusação era de que os bancos a “manipulavam”. As consequências não foram apenas lucros astronômicos: as pessoas que fizeram hipotecas e empréstimos pagaram mais do que deveriam. Resumindo: os bancos obtiveram lucros enormes às custas de outros, que perderam rios de dinheiro.

Tudo isso suscitou muitas questões. (1) Como foi possível? (2) Por que as autoridades reguladoras não interromperam uma prática que, agora, dizem ser tão fraudulentas; ou seja: quem sabia o quê e quando? E (3) alguma coisa pode ser feita para que isso não aconteça novamente?

Vamos começar com a definição da taxa Libor. É uma abreviação de London Interbank Offered Rate (Taxa Interbancária Praticada em Londres). Não é muito antiga: a versão definitiva é de 1986. Na época, a British Bankers Association (Associação dos Banqueiros Britânicos) pediu que os “maiores bancos” compartilhassem informação diárias sobre as taxas de juros que pagariam, se tomassem empréstimos de outros bancos. Depois de eliminados os valores extremos, uma taxa média era determinada, e modificada diariamente. A ideia era que, se os bancos se sentissem confiantes sobre o estado da economia, a taxa seria mais baixa; se estivessem inseguros, a taxa seria mais alta.

Quando a imprensa mundial passou a usar palavra “escândalo” para falar sobre a taxa Libor, ficou claro que o tema havia sido debatido muito antes, em ambientes menos visíveis. Parece que o Wall Street Journal havia divulgado, em 28 de maio de 2008 (sim, em 2008!), um estudo sugerindo que alguns bancos estavam minimizando os custos dos empréstimos. É claro, imediatamente apareceu gente dizendo que o estudo era impreciso ou, se preciso, irrelevante. Análises acadêmicas subsequentes sugeriram, portanto, que a acusação de manipulação dos custos era de fato verdadeira. Continue lendo.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Carta Maior[Saul Leblon]: O "novo normal"


O "novo normal"

Ao mesmo tempo em que demonstra infinita capacidade de se multiplicar enquanto capital fictício - existem US$ 600 trilhões em supostos direitos de saque sobre um PIB mundial de US$ 60 trilhões - o capitalismo financeiro impõe normas e interditos à sociedade que a impedem de ativar seu pleno potencial produtivo. Capturado por esse redil, o Estado abdica de exercer uma tributação efetiva sobre a plutocracia. A 'opção' pelo endividamento de modo a cumprir funções básicas restringe sua capacidade de ordenar o crescimento e, sobretudo, tracionar a economia em período de recessão, como agora. Às vezes o recurso até existe, mas a estrutura para operacionalizá-lo foi desmontada. O governo Dilma sabe o que isso significa.

A espiral da dívida pública, inerente à sub-taxação, faz dos títulos soberanos o novo lastro da riqueza financeira. Graças à livre mobilidade dos capitais , hoje essa 'funcionalidade' é exercida pelos títulos alemães, suíços e norte-americanos. Seus bônus pagam juro negativo, mas representam um cais de repouso confiável à ' bolha financeira', ou ao que restou dela.

A contrapartida é a quebradeira de Estados zumbis que não conseguem captar nem pagando taxas recordes, caso da Espanha, Portugal, Grécia entre outros. Dá-se assim o desconcertante paradoxo: de um lado sobram recursos a certos Tesouros que se financiam a taxas negativas. De outro, imensas poças de potencial produtivo se acumulam no resto do mundo na forma de desemprego obsceno, fome bíblica , infra-estrutura em frangalhos, cidades caóticas, periferias conflagradas, pobreza e sub-consumo.

Convencer a sociedade de que esse é o 'novo normal' parece ser o plano B do neoliberalismo para ganhar tempo e digerir seu imenso passivo, sem alterar o escopo de poder que o consagra. Nos EUA já se especula que uma taxa de desemprego da ordem de 8% seria o 'novo normal'. Na Europa, admite-se que uma década de atividade rebaixada, até a conclusão do ciclo de ajuste, seria o novo normal do euro.

Eventos climáticos extremos são reportados como o novo normal, dada a impossibilidade de se carrear recursos para projetos globais de reordenação energética e controle de emissões.Continue lendo.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Carta Maior[Saul Leblon]: Ninguém aguenta mais: a Espanha vai às ruas; mais El País

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Ninguém aguenta mais: a Espanha vai às ruas

Mais de 100 mil pessoas ocuparam a praça do Sol, em Madrid, na noite desta 5ª feira. Protestos tomaram outras 80 cidades da Espanha. As centrais sindicais exigem um plebiscito para definir o futuro da sociedade e da economia. As manifestações explodiram no mesmo dia em que o Congresso -dominado pela direita do PP - aprovou o novo pacote de arrocho ditado pela cúpula do euro à Madrid. O governo conservador de Mariano Rajoy já não comanda; o Palpacio de la Moncloa está sob intervenção direta dos homens de negro de Bruxelas que impõem medidas, fiscalizam políticas e fuçam as contas do Estado.

Em troca de empréstimos para salvar os bancos, cuja primeira parcela de 30 bi foi liberada esta semana, o Eurogrupo determinou cortes adicionais da ordem de 65 bi no fragilizado tecido social espanhol. O pacote sancionado nesta 5ª feira impõe perdas salariais aos funcionários públicos, eleva impostos e retalha adicionalmente orçamentos essenciais e restringe o auxílio desemprego em meio a um quadro de reduçao epidêmica de vagas. Bombeiros aplaudiam manifestantes nas ruas de algumas cidades nesta 5ª feira --os homens do fogo também foram atingidos pelo incêndio neoliberal em que se transformou a Espanha.

O sacrifício é visto como inútil até pelos economistas conservadores: a Espanha já quebrou. Ao alimentar a recessão com mais arrocho o governo sabota sua própria capacidade de obter receita e pagar contas. Os capitais sabem e fogem do país; mais de 200 bilhões de euros saíram este ano da Espanha: é o dobro do volume que Bruxelas acena emprestar para salvar os bancos.

A conta não fecha. Investidores preferem guardar o dinheiro na Alemanha, e receber juro negativo, do que financiar o governo desastrado da direita espanhola, que lhes paga taxas recordes insustentáveis de 7%. A derrocada espanhola é a síntese de dois momentos do ciclo neoliberal: a omissão estatal no ciclo de alta, feito de supremacia das bolhas de crédito e desregulamentação especulativa; e a ausência de soberania estatal agora, no colapso do modelo, quando a finança submete toda a sociedade à opressão para salvar-se.

O que as ruas de Madrid estão dizendo, finalmente, é que os espanhóis querem o Estado de volta para defendê-los; não para dilapidá-los com aguilhões e espetos da impunidade rentista. Trata-se de uma agenda universal. Continue lendo.

Atualização às 14:33

Imagens: Vídeo Atlas - El País 
 
El País: La indignación contra los recortes desborda las calles de toda España
 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Brasil247: Lavagem nos EUA afeta HSBC no Brasil; mais Agência Brasil

Mais uma lavanderia, gigantesca!

Lavagem nos EUA afeta HSBC no Brasil

Plano de recuar no setor do varejo, com o fechamento de agências no Brasil, já havia sido anunciado pela direção do banco; estrago feito por investigação do senado americano deve acelerar cortes; HSBC pode ter licença cassada nos EUA; bilhões em dinheiro sujo de traficantes mexicanos e até terroristas da Al-Qaeda ficavam limpos em seus cofres

18 de Julho de 2012 às 13:29

247 – O bilionário escândalo de lavagem de dinheiro envolvendo o banco HSBC nos Estados Unidos pode acelerar, no Brasil, a redução da presença dessa bandeira no setor de varejo, com o fechamento de agências. A direção do banco no País já havia anunciado a decisão de concrentrar negócios entre clientes de alta renda, mas o tamanho do estrago que pode levar até mesmo à cassação da licença para o HSBC funcionar nos EUA terá reflexos na operação global da instituição. Com sede nacional no Paraná, o britânico HSBC se estabeleceu aqui pela incorporação do quebrado Bamerindus, em 1997, numa operação obscura que envolveu milhões em dinheiro público. O caso foi descrito pela revista Veja, à época, como uma doação:

“ O Bamerindus foi doado da seguinte maneira: os ingleses darão os 381,6 milhões ao BC, em troca de 1 241 agências, ativos de mais de 10 bilhões de reais e uma das seguradoras mais rentáveis do país. Pagarão em sete anos, o que já é uma facilidade. Na surdina, o HSBC recebeu 431,8 milhões de reais do BC para reestruturar o Bamerindus e saldar reclamações trabalhistas. O dinheiro serve para comprar computadores novos, contratar consultores, fechar ou abrir agências. O HSBC já sacou esse dinheiro, em três parcelas. Não foi um empréstimo, já que o dinheiro não retornará ao BC. O cálculo aritmético fica bem simples. Além de agências, prédios, depósitos e perspectiva futura de lucro, o HSBC ainda recebeu um troco de 50,2 milhões”, registrou reportagem da revista. 

Neste momento, as acusações formais do Senado americano apontam para o crime de lavagem de dinheiro de cartéis de traficantes mexicanos, empresas russas e remessas pesadas para o Irã. Há suspeita de lavagem em torno de recursos de empresas fantasmas ligadas à rede terrosta Al-Qaeda. O Bamerindus foi doado da seguinte maneira: os ingleses darão os 381,6 milhões ao BC, em troca de 1 241 agências, ativos de mais de 10 bilhões de reais e uma das seguradoras mais rentáveis do país. Pagarão em sete anos, o que já é uma facilidade. Na surdina, o HSBC recebeu 431,8 milhões de reais do BC para reestruturar o Bamerindus e saldar reclamações trabalhistas. O dinheiro serve para comprar computadores novos, contratar consultores, fechar ou abrir agências. O HSBC já sacou esse dinheiro, em três parcelas. Não foi um empréstimo, já que o dinheiro não retornará ao BC. O cálculo aritmético fica bem simples. Além de agências, prédios, depósitos e perspectiva futura de lucro, o HSBC ainda recebeu um troco de 50,2 milhões. aíses como o Irã.

Segundo o relatório de uma comissão de senadores, os cartéis mexicanos utilizaram as filiais do banco para realizar operações que os permitiu lavar milhões de dólares procedentes da droga no sistema americano.

O relatório legislativo também aponta que o HSBC e sua filial nos EUA ocultaram suas operações com o Irã por seis anos, totalizando um valor de US$ 16 bilhões.

As movimentações violaram as regras americanas que proíbem relações comerciais e financeiras com países como Irã, Sudão e Coreia do Norte.

O chefe da auditoria interna do HSBC, David Bagley, anunciou que vai deixar o seu cargo. O responsável foi um dos executivos chamado pelo Senado americano para responder a acusação de que o banco permitiu que houvesse lavagem de dinheiro na unidade do banco nos EUA.

Segundo informações da agência de notícias pública, Lusa, o HSBC reconheceu as ”falhas” e apresentou publicamente desculpas, por ter falhado na fiscalização de possíveis operações. Continue lendo.

Atualização às 23:45

quinta-feira, 12 de julho de 2012

JB: Banksters[The Economist compara banqueiros com gangsters]

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Chamada da capa do jornal: "The Economist compara banqueiros com gangsters" Principal post relacionado. Artigo original em inglês aqui.

Banksters

Jornal do Brasil republica matéria da revista The Economist na íntegra

Jornal do Brasil
The Economist



"Como não temos maiores poderes para conhecer o futuro do que outras pessoas, cometemos diversos enganos (quem não cometeu enganos nesses últimos cinco anos?), mas  nossos enganos foram erros de apreciação e não de princípios.” Assim refletiu J. P. Morgan Junior em 1933, no meio de uma crise financeira. Os banqueiros de hoje não podem ter esse conforto com base em seu comportamento.  As tentativas de atrelar a LIBOR (a London inter-bank offered rate: a taxa interbancária oferecida em Londres), uma taxa de juros referencial, não só mostram uma cultura de desonestidade casual – elas também abrem caminho para processos judiciais e maior regulamentação ao redor do mundo. Pode muito bem ser a “hora do cigarro” nas finanças globais.

Os perigos disso são óbvios. A fúria popular e as ações coletivas nem sempre são bons pontos de partida para novas normas. Entretanto, apesar dos riscos de os banqueiros se atracarem, uma limpeza é de bom alvitre, porque a credibilidade do ramo bancário foi atacada e, sem confiança, nem os negócios nem os clientes dos bancos poderão prosperar.

Atualmente, o escândalo invade um país e cerca um banco. O Barclays foi multado em US$450 m pelos reguladores americanos e britânicos, por suas tentativas de manipular a LIBOR. A primeira tentativa do banco de fugir da tempestade falhou miseravelmente. Bob Diamond, principal executivo do Barclay pediu demissão esta semana. O governo britânico ordenou uma revisão parlamentar dos seus bancos. A reputação da City de Londres (o centro financeiro de Londres), onde a LIBOR é estipulada, mediante cotejo de estimativas de seus próprios custos dos empréstimos num painel de bancos, foi mais atingida.

Mas essa estória vai além da Grã-Bretanha. O Barclays é o primeiro banco focalizado porque ofereceu-se para colaborar plenamente com os reguladores. Não será o último. As investigações sobre a estipulação da LIBOR e de outras taxas também estão em andamento na América, no Canadá e nos Estados Unidos. Entre elas, essas sondagens abrangem muitos dos maiores nomes das finanças: tais como Citigroup, JPMorgan Chase, UBS, Deutsche Bank e HSBC. Funcionários, desde Nova York até Tóquio, estão envolvidos.

O banco e o Banco

As provas que surgiram da investigação do Barclays revelam dois tipos de mau comportamento. O primeiro destinava-se à manipulação da LIBOR, em favorecimento dos lucros dos negociantes. Os negociantes do Barclays movimentaram seus próprios balcões do mercado financeiro para adulterar as submissões à LIBOR (e à EURIBOR (uma taxa de juros baseada no euro, criada em Bruxelas). Também conspiravam com seus pares em outros bancos, apresentando e recebendo solicitações para transferir seus respectivos clientes. Quadro similar de ampla conspiração emerge de documentos referentes à investigação canadense. Essa parte do escândalo da LIBOR assemelha-se mais a um cartel do que a uma negociação marota.

Isso pode acabar custando muito dinheiro aos bancos. A LIBOR é utilizada para calcular instrumentos financeiros estimados em US$800 trilhões, que afetam o preço de tudo, de simples hipotecas a derivativos com taxa de juros. Se tentativas para manipular a LIBOR foram bem sucedidas – e os reguladores acham que o Barclays conseguiu, ocasionalmente – isso constituiria a maior fraude de valores mobiliários da história, afetando investidores e mutuários em todo o mundo. Isso abre a porta para litígios, não só por parte de clientes diretos dos bancos envolvidos, mas também por parte de qualquer um que tenha interesse financeiro na LIBOR. Os processos já começaram.

O segundo tipo de montagem com a LIBOR, que teve início em 2007, no início do problema do crédito, também pode levar a litígios mas é mais complicado eticamente, porque havia um tipo de “bem público” envolvido. Durante a crise, uma grande submissão à LIBOR foi vista como um sinal de fraqueza financeira. O Barclays baixou suas submissões para que pudesse retornar para o grupo de bancos do painel. Apresentou provas que podem ser interpretadas como uma concordância implícita do Bank of England (e dos mandarins de Whitehall) em que agisse assim. O banco central nega isso, mas, naquela ocasião, os governos estavam, com razão, desesperados para aumentar a confiança nos bancos e manter o crédito fluindo. Suspeita-se que pelo menos alguns bancos estavam apresentando estimativas baixas da LIBOR, com a tácita permissão de seus reguladores.

Quando a confiança acaba

A estória passará agora para os tribunais cíveis em todo o mundo: o que pode ser um longo processo. De um ponto de vista baseado no interesse público, duas tarefas nos defrontam. A primeira seria descobrir exatamente o que ocorreu e punir os envolvidos. Se o único motivo foi cobiça, as pessoas diretamente envolvidas na fraude devem ir para a cadeia. Se a taxa foi diminuída para manter o banco flutuando, e os reguladores foram envolvidos, tanto os banqueiros quanto os seus reguladores devem explicar porque arriscaram a reputação da City (o centro financeiro de Londres) a esse ponto. Na Grã-Bretanha, um inquérito independente faz sentido – quanto mais rápido melhor, o que recomenda mais o tipo parlamentar, que o governo deseja impor, do que a variedade judicial que a oposição exige.

A segunda tarefa é mudar a forma como as finanças são regidas – assim como a cultura bancária. Afinal, este não é o primeiro escândalo da fixação de preço: já houve vários em Wall Street. Uma caça às bruxas seria desastrosa, mas a cultura flui a partir da estrutura. Os argumentos a favor de separar os bancos de varejo dos bancos de investimento, com base na “moral”, são fracos, mas os bancos individuais poderiam atuar melhor: descontando multas das bonificações, por exemplo. Algumas normas também poderiam ser modificadas. A LIBOR é determinada sob a égide não de uma taxa reguladora, mas sim de uma entidade comercial, a British Bankers’ Association (a Associação dos Banqueiros Britânicos). Isso funcionaria nos tempos antigos quando “o erguer das sobrancelhas do governador” era suficiente para manter os banqueiros na linha. Hoje em dia a City é o maior centro financeiro internacional.

No futuro, a LIBOR e suas equivalentes, como a EURIBOR, devem ser estipuladas com base nos custos reais e não nos custos estimados dos empréstimos. Isso nem sempre é possível: quando os mercados não têm liquidez ou têm baixa movimentação, números hipotéticos podem ser necessários para produzir um ponto de referência. Mais bancos serão necessários para formar o painel de mutuantes que se apresentam, o que torna o procedimento mais difícil. Os dados devem ser cruzados para checagem, sempre que possível, indagando dos bancos quanto cobrariam pelo empréstimo, assim como quanto o empréstimo lhes custará. E o processo deve ser monitorado de perto por um regulador externo.

“O banqueiro deve sempre conduzir-se de modo a justificar a confiança que os seus clientes têm nele,” disse J. P. Morgan Junior. Essa confiança foi perdida: precisa ser reconquistada. Origem.

Tradução: Rosa Maria Ripper

sábado, 7 de julho de 2012

Carta Maior: Escândalo da taxa libor pode ser um "golpe devastador"

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Sempre os bancos... Ladrões!

Escândalo da taxa libor pode ser um "golpe devastador"

O escândalo envolve cerca de 20 grandes bancos internacionais e um mercado de cerca de 500 trilhões de dólares, quatro vezes o PIB dos Estados Unidos. Em entrevista à Carta Maior, o professor de Economia do Centro de Investigação de Mudança Sócio-Cultural (CRESC), da Universidade de Manchester, Michael Moran, assinalou que este escândalo pode ser um golpe devastador na frágil credibilidade do sistema financeiro internacional. A reportagem é de Marcelo Justo, direto de Londres.
Marcelo Justo - Londres

Londres - A atual crise econômica mundial é filha do estouro financeiro de 2008. O resgate das principais instituições financeiras, os pacotes de estímulo fiscal e a recessão mundial conduziram à crise da dívida soberana com epicentro na eurozona. Os resgates de Grécia, Portugal e Irlanda serviram para evitar uma crise dos bancos e entidades credoras desses países. Na Irlanda, o Estado assumiu toda a dívida construída por seus principais bancos: o balanço fiscal passou do superávit de 2007 para um prejuízo equivalente a 32% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2010.

O escândalo da manipulação da taxa interbancária Libor que estourou na semana passada é uma nova etapa desta longa crise do sistema financeiro. O escândalo envolve cerca de 20 grandes bancos internacionais e um mercado de cerca de 50 trilhões de dólares, quatro vezes o PIB dos Estados Unidos. Em entrevista à Carta Maior, o professor de Economia do Centro de Investigação de Mudança Sócio-Cultural (CRESC), da Universidade de Manchester, Michael Moran, assinalou que este escândalo pode ser um golpe devastador na frágil credibilidade do sistema financeiro internacional.

Há nove entidades reguladoras investigando a manipulação das taxas Libor. É um escândalo global, mas tem o mesmo potencial sistêmico que teve a quebra do Lehman Brothers em 2008?

A taxa Libor tem um impacto mundial. Ela determina a taxa pela qual se empresta aos bancos e isso, por sua vez, se transmite às taxas de juros pagas pelos consumidores e pelo mundo produtivo em seus empréstimos. Como Londres é o centro financeiro mais importante do mundo, juntamente com Nova York e Tóquio, uma manipulação dessa taxa afeta o sistema bancário no Brasil ou na Tailândia. Além disso, o escândalo expõe o nível de desregulação e descontrole com que operam os mercados financeiros. O que ocorreu não foi uma conduta ilícita de 14 traders como disse quarta-feira o diretor do Barclays, Bob Diamond, ante o parlamento britânico.

O atual escândalo é um novo golpe na confiança de que necessita um sistema financeiro para existir. Acaba de começar, mas tem meses e mesmo anos pela frente. Nos Estados Unidos podemos ter uma catarata de demandas judiciais. No Reino Unido, reabriu em toda sua dimensão o debate sobre a regulação do sistema financeiro no momento em que ainda está se discutindo a nova lei, que até agora parecia uma versão muito aguada da proposta original. Acreditamos que agora vai aumentar muito a exigência para que as bancas comercial e especulativa fiquem claramente separadas.

Como se manipula uma taxa interbancária?

A taxa Libor não reflete o que os bancos estão fazendo no mercado. Ela reflete o que os bancos dizem. Os 16 bancos mais importantes de Londres dizem diariamente que taxa de juro pensam que terão que pagar por pedir dinheiro emprestado. A Associação bancária que coordena a valoração da taxa descarta as estimativas mais altas e as duas mais baixas, tirando uma média com o restante das estimativas dos bancos. Essa taxa média é o Libor que funciona como ponto de referência para a determinação da taxa pela qual os bancos vão emprestar dinheiro. A estimativa feita por cada banco não é arbitrária: ela tem que cair dentro de uma zona de credibilidade. Mas com o volume de operações em jogo, uma variação de 0,5% significa bilhões.

Além dos bancos, quem são os ganhadores e os perdedores com essas manobras?

A manipulação ocorreu tanto para baixo como para cima, com o que havia grupos que podiam perder em um momento e ganhar em outro: os bancos ficavam sempre em melhor situação. Ou seja, se a taxa libor baixa isso tem um impacto na taxa que os consumidores pagam por seus empréstimos: os consumidores se beneficiam. Mas, ao mesmo tempo, os investidores, os fundos de pensão, recebem menos juro por seus empréstimos. Um dos dramas é que atores muito importantes do mercado financeiro acreditava que a taxa Libor era parte de um cálculo honesto e transparente da taxa de juros.

Lembremos também que o escândalo está centrado, no momento, no Barclays porque ele foi o primeiro a ser multado pelas autoridades regulatórias dos Estados Unidos e do Reino Unido, mas há quase 20 outros bancos envolvidos. É óbvio que o escândalo crescerá. Nas próximas semanas começaremos a entender a verdadeira dimensão desse escândalo. Em última instância, o que está em jogo é a estrutura do sistema bancário e do sistema regulador.

Tudo isso está ocorrendo paralelamente à crise da eurozona, na qual a vulnerabilidade do sistema bancário é muito clara. Pode haver um contágio deste escândalo que piore a situação dos bancos europeus? Pode haver uma repetição de 2008?

A crise europeia implicou uma contínua injeção de recursos para alavancar os bancos. Isso teve um forte impacto político nos países resgatados. Ao mesmo tempo, as intervenções do Banco Central Europeu (BCE) para alavancar os bancos resultaram na absorção de dívidas incobráveis dessas entidades. Em algum momento, o próprio BCE terá que dar conta dessas dívidas. O sistema é muito frágil. Seria uma estupidez descartar uma repetição do que ocorreu em 2008. Isso pode ocorrer de várias maneiras. A mais óbvia é a derrocada da eurozona. Um grande mistério é qual a situação real dos bancos britânicos face à essa situação. Sabemos que estão bastante expostos a Espanha, por exemplo. Não sabemos, porém, que impacto todo esse escândalo da taxa libor terá sobre o sistema financeiro britânico. Origem.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Notícias do Dia: Quinta-feira, 28/06/2012 - REFAZENDA2010-blog

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