Carta Maior [Saul Leblon]: A mão da rua
Em sucessivos plebiscitos, a população islandesa decidiu deixar a banca quebrar, estatizou a sobra e colocou banqueiros na cadeia.
por: Saul Leblon
A Islândia é uma nação diminuta perto do Brasil, uma espécie de Santa Catarina de gelo, com população menor que a de Jundiaí. Apenas 320 mil habitantes.
Se é possível dizer que essas características lhe dão flexibilidade para soluções impensáveis aos ‘baleias’ -- viver de turismo e pesca, por exemplo -- também é verdade que o seu poder de barganha é infinitamente menor.
Guiar-se pelo imperativo dos mercados seria o previsível no seu caso, deixando-se levar de forma mais ou menos passiva pela maré dos interesses graúdos que dominam a cena global.
Não foi o que ocorreu na crise de 2008.
Driblar a fatalidade de uma receita de arrocho em condições de estresse econômico e político extremo, eis aí uma dimensão que conecta as singularidades dessa ilha polar às urgências dos trópicos nos dias que correm.
A crise mundial de 2008 pegou a economia e a sociedade islandesa no contrapé de uma vulnerabilidade extrema, confrontando-a, entre outros, com interesses bancários britânicos, alemães e holandeses.
A Islândia não tinha mais nada a perder – e isso não é retórico. A banca do país mergulhara de cabeça na farra financeira da década e havia acumulado o equivalente a uma dúzia de PIBs em operações e compromissos tornados impagáveis do dia para a noite.
Quando a ciranda parou de girar com a explosão da bolha imobiliária nos EUA, os credores externos – bancos europeus — quiseram empurrar a fatura para a população.
A ideia era transformar a Islândia num duto conectado à central de sucção da finança global, que assim resolveria a sua parte no imbróglio escalpelando a sociedade -- como de fato tem sido feito com vários outros países.
O pagamento seria em moeda sonante e em espécie: alguns milhares de dólares per capita em impostos, cortes de gastos, privações, privatizações, demissões e o que mais fosse necessário para servir ao principal e aos juros por longos dez anos a quinze anos.
A nota dissonante suficientemente conhecida é que a população islandesa não concordou.
Em vez de se entregar à mastigação ela resolveu ajustar a engrenagem a seu favor, e não aos desígnios da banca ou de seus acionistas.
Ao recusar o matadouro inverteu a sentença: em sucessivos plebiscitos, a população decidiu deixar a banca quebrar, estatizou a sobra e colocou banqueiros na cadeia.
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
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domingo, 8 de fevereiro de 2015
Notícias do Dia
Carta Capital: Entrevista - Washington Quaquá - "Sem reformas, nem Lula salva a esquerda em 2018"
Carta Maior [Saul Leblon]: Urgente, falta uma ponte entre o apelo e a rua
Carta Maior [Saul Leblon]: Urgente, falta uma ponte entre o apelo e a rua
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015
Carta Maior [Saul Leblon]: A recessão vai 'curar' o Brasil?
Carta Maior [Saul Leblon]: A recessão vai 'curar' o Brasil?
A elevação da Selic em mais meio ponto custará outros R$ 6 bilhões em juros. É um exemplo do remédio para consertar a perna da girafa que quebra seu pescoço
por: Saul Leblon
O segundo governo Dilma começou há 21 dias.
Há vinte, ele se dedica integralmente ao propósito de convencer os mercados (financeiros) e o setor produtivo de que o Brasil tem futuro.
Dito assim parece trivial.
O Brasil enfrenta desequilíbrios intrínsecos à luta pelo desenvolvimento sob a hegemonia do capital financeiro globalizado.
Mas o faz do alto da quinta maior extensão territorial do planeta.
Praticamente todo o seu território é habitável, nele vivem mais de 200 milhões de pessoas; a economia formal inclui 90 milhões de assalariados; a renda per capita vinha crescendo acima de 2% ao ano, em média; desse conjunto brotou um mercado de consumo de massa que abrange 53% da população.
A engrenagem tem um encontro marcado com um pico de investimentos em infraestrutura entre 2015 e 2017 –algo da ordem de R$ 300 bilhões. Uma espiral de produção de petróleo extraído das maiores reservas descobertas no século XXI vai dobrar a oferta nacional em cinco anos.
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A elevação da Selic em mais meio ponto custará outros R$ 6 bilhões em juros. É um exemplo do remédio para consertar a perna da girafa que quebra seu pescoço
por: Saul Leblon
O segundo governo Dilma começou há 21 dias.
Há vinte, ele se dedica integralmente ao propósito de convencer os mercados (financeiros) e o setor produtivo de que o Brasil tem futuro.
Dito assim parece trivial.
O Brasil enfrenta desequilíbrios intrínsecos à luta pelo desenvolvimento sob a hegemonia do capital financeiro globalizado.
Mas o faz do alto da quinta maior extensão territorial do planeta.
Praticamente todo o seu território é habitável, nele vivem mais de 200 milhões de pessoas; a economia formal inclui 90 milhões de assalariados; a renda per capita vinha crescendo acima de 2% ao ano, em média; desse conjunto brotou um mercado de consumo de massa que abrange 53% da população.
A engrenagem tem um encontro marcado com um pico de investimentos em infraestrutura entre 2015 e 2017 –algo da ordem de R$ 300 bilhões. Uma espiral de produção de petróleo extraído das maiores reservas descobertas no século XXI vai dobrar a oferta nacional em cinco anos.
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Carta Maior [Saul Leblon]: Somos todos Manchetômetro!
Uma ferramenta, que está de volta. Da UERJ. Medirá os desmandos da manipulação midiática das nove famílias brasileiras que detém o oligopólio da imprensa
Carta Maior [Saul Leblon]: Somos todos Manchetômetro!
Tremei déspotas da primeira página: sua parcialidade voltou a ser medida e monitorada cientificamente pelo manchetômetro, site de monitoramento de mídia
Saul Leblon
No momento em que o conservadorismo captura o tema da liberdade de expressão para, mais uma vez, colocá-lo ao abrigo das suas conveniências, servindo-se agora da justa comoção causada pelo massacre terrorista contra o Charlie Hebdo, uma fresta se abre na esférica blindagem do oligopólio midiático brasileiro.
De dentro dela uma teimosia se levanta para dizer: ‘O Manchetômetro está de volta’. Tremei déspotas da primeira página e maestros das escaladas de uma nota só: sua parcialidade voltou a ser medida e monitorada cientificamente.
O site de monitoramento de mídia, criado por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) para avaliar a cobertura das eleições de 2014 fez tanto sucesso –entenda-se, incomodou tanto—que voltou à frente de batalha.
Espera-se que desta vez para ficar.
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Carta Maior [Saul Leblon]: Somos todos Manchetômetro!
Tremei déspotas da primeira página: sua parcialidade voltou a ser medida e monitorada cientificamente pelo manchetômetro, site de monitoramento de mídia
Saul Leblon
No momento em que o conservadorismo captura o tema da liberdade de expressão para, mais uma vez, colocá-lo ao abrigo das suas conveniências, servindo-se agora da justa comoção causada pelo massacre terrorista contra o Charlie Hebdo, uma fresta se abre na esférica blindagem do oligopólio midiático brasileiro.
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| Reprodução |
De dentro dela uma teimosia se levanta para dizer: ‘O Manchetômetro está de volta’. Tremei déspotas da primeira página e maestros das escaladas de uma nota só: sua parcialidade voltou a ser medida e monitorada cientificamente.
O site de monitoramento de mídia, criado por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) para avaliar a cobertura das eleições de 2014 fez tanto sucesso –entenda-se, incomodou tanto—que voltou à frente de batalha.
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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015
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JB: A Petrobras é do povo. Quem deve ser punido são os verdadeiros ladrões
JB: Lava Jato: associação entrará com ação popular contra empreiteiras
Rede Brasil Atual: Dieese alerta para os prejuízos de novas regras do seguro-desemprego
Atualização às 15:06 desta quarta-feira, 15/01/2015
Carta Maior [Saul Leblon]: O PSDB e sua obra-prima de gestão: o racionamento em SP
JB: Lava Jato: associação entrará com ação popular contra empreiteiras
Rede Brasil Atual: Dieese alerta para os prejuízos de novas regras do seguro-desemprego
Atualização às 15:06 desta quarta-feira, 15/01/2015
Carta Maior [Saul Leblon]: O PSDB e sua obra-prima de gestão: o racionamento em SP
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Carta Maior [Saul Leblon]: Somos todos o quê?
Carta Maior [Saul Leblon]: Somos todos o quê?
A nostalgia da guilhotina é só o primeiro degrau. O endurecimento contra imigrantes, na verdade, já avançava em marcha batida antes do massacre em Paris.
por: Saul Leblon
O emblema totalizante, ‘somos todos Charlie’ teve curta unanimidade no ambiente trincado de uma Europa onde, de fato, não há lugar para todos serem a mesma coisa em parte alguma.
Os números da exclusão em marcha no continente são suficientes para esfarelar essas ‘uniões’ nascidas da emoção da tragédia, como é o caso, mas que historicamente se mostram insuficientes para regenerar as partes de um todo que já não se encaixava mais.
Como recompor o cristal da liberdade, da igualdade e da fraternidade, diante de uma Europa unificada pela lógica do mal estar social?
Com políticas pública que hoje irradiam chantagem, regressão , niilismo, intolerância e medo diante do futuro rarefeito?
Somos todos o quê?
É justo perguntar quando o Estado a serviço dos mercados mastigou todas as pontes para a construção de uma cidadania convergente e soberana.
A polêmica linha de humor do ‘Charlie Hebdo’ deve seu sucesso, em grande parte, justamente à acentuação dessa rachadura em uma chave religiosa.
Deve-se respeitar a sua liberdade. Mas a forma como escolheu exerce-la fez do jornal parte do estilhaçamento que procurava criticar; tornou-se assim mais um referido do que referência.
A Europa tem hoje 8 milhões de imigrantes sem papeis; 120 milhões de pobres e 27 milhões de desempregados.
Após seis anos de arrocho neoliberal, o desemprego e o esfarelamento do padrão de vida dos trabalhadores e da classe média –condensado em uma geração de jovens que dificilmente repetirá a faixa de renda dos pais, turbinou a rejeição ao estrangeiro, criou o medo da 'islamização da sociedade', alimentou a extrema direita e liberou a demência terrorista.
Não necessariamente nessa ordem, mas com essa octanagem abrangente.
A imponente marcha em Paris neste domingo não escapou do liquidificador de nitroglicerina.
Seria irônico , não fosse trágico.
Na comissão de frente da principal coluna da manifestação, que reuniu um milhão de pessoas, ao lado do presidente François Hollande , e de Merkel, lá estava Benjamin Netanyahu.
Sim, o premiê de Israel.
Ele que acaba de se aliar à extrema direita para transformar o Estado israelense em um estado religioso.
Responsável por alguns dos mais impiedosos massacres do século XXI, contra populações civis encurraladas por Israel na Faixa de Gaza, a presença de Netanyahu a engrossar o ‘somos todos Charlie’ convida a pensar sobre o alcance das unanimidades.
É um silogismo barato afirmar que a recusa ao bordão dominante endossa o abismo ensandecido do terrorismo.
Num texto de 1911, ‘Porque os marxistas se opõem ao terrorismo individual’, e quando ainda nem desconfiava que ele próprio seria uma vítima futura, León Trostsky criticou exemplarmente aquilo que, nas suas palavras, ‘mesmo que obtenha "êxito" (e) crie confusão na classe dominante (...) terá vida curta; o estado capitalista não é eliminado; o mecanismo permanece intacto e em funcionamento. Todavia, a desordem que um atentado terrorista produz nas fileiras da classe operária é muito mais profunda. Se para alcançar os objetivos basta armar-se com uma pistola, para que serve esforçar-se na luta de classes? Se um pouco de pólvora e um pedaço de chumbo bastam para perfurar a cabeça de um inimigo, que necessidade há de organizar a classe? Se tem sentido aterrorizar os altos funcionários com o ruído das explosões, que necessidade há de um partido?’, criticava o líder da Revolução de Outubro, banido e assassinado por Stálin, para concluir em seguida: ‘Para nós o terror individual é inadmissível precisamente porque apequena o papel das massas em sua própria consciência e (desvia) seus olhos e esperanças para o grande vingador e libertador, que algum dia virá cumprir sua missão’.
Cento e quatro anos depois, o alerta ganha atualidade diante das medidas cogitadas após o massacre em Paris.
Os indefectíveis Le Pen, pai e filha, pedem, nada menos que a restauração da pena de morte, abolida em 1981.
A nostalgia da guilhotina é só o primeiro degrau do patíbulo.
O endurecimento contra os imigrantes, na verdade, já avançava em marcha batida antes do massacre da quarta-feira (07/01) .
Agora, porém, que ‘somos todos Charlie’, quem irá detê-lo –se até Netanyahu aderiu?
Ofuscados habilmente pelo ‘consenso’, os antecedentes da tormenta esticam o elástico de uma gigantesca armadilha histórica.
Desemprego com deflação e captura do Estado e da política pela alta finança.
É disso que se trata a tragédia europeia, vista de corpo inteiro.
A zona do euro enfrenta deflação recessiva; a Itália tem desemprego recorde; Alemanha e França assistem a uma espiral de xenófobia; Grécia tem 59% da juventude fora do mercado; Portugal tem 500 mil desempregados e Espanha devastou sua rede de proteção social.
Assim por diante.
Foi preciso que um economista moderado, Thomas Piketty, coligisse uma enciclopédia estatística do avanço rentista sobre a riqueza da sociedade para que o tema da desigualdade merecesse algum espaço –fugaz— no debate econômico e midiático sobre a crise europeia.
E mesmo assim colateral às decisões da troika, que estala o relho no lombo da cidadania e exige ordem unida ao abismo.
É sobre essa base de rigidez que a alavanca da tragédia move o curso da história.
Não Maomé, não Charlie Hebdo, não a juventude niilista.
Não os filhos de imigrantes pobres , que se convertem cada vez mais ao islamismo como ponto de fuga à meia cidadania da desordem neoliberal que nada tem a lhes propor hoje.
E não o fará amanhã também.
Entregue aos ajustes fiscais, na ressaca dos mercados após o fastígio neoliberal, a Europa é hoje um museu de lembranças do acolhimento humanitário e político, que a transformaria em legenda da civilização e da fraternidade.
Na Itália, sob o afável Berlusconi, o Estado elevou para seis meses o tempo que imigrantes ilegais podem ser detidos em ‘ centros especiais’ e autorizou a criação de falanges civis para “ajudar a polícia a combater o crime nas ruas”.
Na Grécia, onde as taxas de desemprego triplicaram sob o chicote de Frau Merkel, os integrantes do partido Aurora Dourada sequer dissimulam a inspiração nazista: sua faxina étnica avança contra árabes, africanos, ambulantes, ciganos e homossexuais.
‘Somos todos Charlie’?
As notícias contraditórias que chegam dos EUA, surfando em uma recuperação feita de empregos com salários aviltados, e da Europa sem Estado à altura para reagir, evidenciam a profundidade de uma desordem que não cederá tão cedo, nem tão facilmente.
A consciência dessa longa travessia é um dado fundamental para renovar a ação política em nosso tempo.
Recuos e derrotas acumulados pela esquerda mundial desde os anos 70, sobretudo a colonização de seu arcabouço pelos interditos neoliberais, alargaram os vertedouros ao espraiamento de uma dominância financeira que agora produz manifestações mórbidas em todas as esferas da vida.
Quando a economia se avoca um templo sagrado, dotado de leis próprias, revestido de esférica coerência endógena, avessa ao ruído das ruas, das urnas e das aspirações por cidadania plena, o que sobra à democracia?
A pauta dos mercados autorregulados revelou-se uma fraude.
Gigantesca.
Era o fim da história, replicava o colunismo áulico.
Não era, mostrou setembro de 2008.
Pior que isso.
O sete de janeiro francês avisa que se a sociedade continuar apartada do seu destino, os próximos capítulos serão dramáticos.
No Brasil, os que incitavam o governo a jogar o país ao mar em 2008, retrucam que o custo de não tê-lo afogado na hora certa acarretou custos insustentáveis.
E eles terão que ser pagos agora.
Na forma de um afogamento incondicional.
Recomenda-se vivamente beber a cota do dilúvio desdenhada em 2008 em uma talagada única.
Não há alternativa, diria Margareth Tatcher.
As escolhas intrínsecas a uma repactuação do desenvolvimento brasileiro, de fato, não são singelas.
Nada que se harmonize do dia para a noite.
Por isso, o crucial é erguer linhas de passagem, repactuar metas, ganhos, perdas, salvaguardas e prazos.
Mas há um requisito para isso: tirar a economia do altar sagrado da ortodoxia e expô-la ao debate democrático do qual participem todas as forças sociais.
Quando a mídia conservadora tenta tropicalizar o bordão ‘somos todos Charlie’, seu objetivo mal disfarçado vai no sentido oposto.
Tenta-se reduzir uma tragédia ciclópica a um atentado à liberdade de expressão.
E de forma rudimentar desdobrar a comoção aqui em um veto ao projeto de regulação da mídia brasileira.
Para quê? Justamente para interditar o debate sobre o passo seguinte do desenvolvimento do país.
O apego da emissão conservadora à liberdade de expressão, como se sabe, é relativo.
No dia seguinte ao massacre em Paris, a Folha de São Paulo, por exemplo, dedicou 256 palavras, uma nota de rodapé, para tratar do caso do blogueiro saudita, Raif Baddawi.
Baddawi dirigia o fórum on-line ‘Liberais Sauditas Livres’; foi condenado por isso a dez anos de prisão e multa de US$ 260 mil.
Seu caso é uma referência do padrão de justiça que impera na democrática sociedade saudita, principal aliada dos EUA no mundo árabe, onde mulheres não podem dirigir sequer automóveis e inexiste judiciário independente da vontade dos mandatários.
Além de dez anos de prisão, Baddawi também será punido com mil chibatadas por "insultar o Islã" – 50 por semana, durante 20 semanas.
A primeira cota foi aplicada na última 6ª feira.
Uma nota com 256 palavras foi tudo o que o liberal Baddawi obteve de um dos principais veículos de informação do país.
Compare-se com as cataratas de tinta, imagem e som dedicadas à blogueira cubana Yoani Sánchez que, livre, leve e solta, viajando pelo mundo, mereceu da mesma Folha de SP mais de 90 mil citações; 155 mil no Globo e 110 mil no Estadão.
É difícil imaginar algo do tipo ‘somos todos Baddawi’ alastrando-se pelo colunismo pátrio que dispensou às visitas de Yoani um tratamento de chefe de Estado.
São dois pesos e mil chibatadas.
Uma diferença sugestiva.
Que recomenda cautela com as unanimidades produzidas pela mesma fonte.
Aqui ou em Paris.
Origem. Publicado em 13/01/2015.
A nostalgia da guilhotina é só o primeiro degrau. O endurecimento contra imigrantes, na verdade, já avançava em marcha batida antes do massacre em Paris.
por: Saul Leblon
O emblema totalizante, ‘somos todos Charlie’ teve curta unanimidade no ambiente trincado de uma Europa onde, de fato, não há lugar para todos serem a mesma coisa em parte alguma.
Os números da exclusão em marcha no continente são suficientes para esfarelar essas ‘uniões’ nascidas da emoção da tragédia, como é o caso, mas que historicamente se mostram insuficientes para regenerar as partes de um todo que já não se encaixava mais.
Como recompor o cristal da liberdade, da igualdade e da fraternidade, diante de uma Europa unificada pela lógica do mal estar social?
Com políticas pública que hoje irradiam chantagem, regressão , niilismo, intolerância e medo diante do futuro rarefeito?
Somos todos o quê?
É justo perguntar quando o Estado a serviço dos mercados mastigou todas as pontes para a construção de uma cidadania convergente e soberana.
A polêmica linha de humor do ‘Charlie Hebdo’ deve seu sucesso, em grande parte, justamente à acentuação dessa rachadura em uma chave religiosa.
Deve-se respeitar a sua liberdade. Mas a forma como escolheu exerce-la fez do jornal parte do estilhaçamento que procurava criticar; tornou-se assim mais um referido do que referência.
A Europa tem hoje 8 milhões de imigrantes sem papeis; 120 milhões de pobres e 27 milhões de desempregados.
Após seis anos de arrocho neoliberal, o desemprego e o esfarelamento do padrão de vida dos trabalhadores e da classe média –condensado em uma geração de jovens que dificilmente repetirá a faixa de renda dos pais, turbinou a rejeição ao estrangeiro, criou o medo da 'islamização da sociedade', alimentou a extrema direita e liberou a demência terrorista.
Não necessariamente nessa ordem, mas com essa octanagem abrangente.
A imponente marcha em Paris neste domingo não escapou do liquidificador de nitroglicerina.
Seria irônico , não fosse trágico.
Na comissão de frente da principal coluna da manifestação, que reuniu um milhão de pessoas, ao lado do presidente François Hollande , e de Merkel, lá estava Benjamin Netanyahu.
Sim, o premiê de Israel.
Ele que acaba de se aliar à extrema direita para transformar o Estado israelense em um estado religioso.
Responsável por alguns dos mais impiedosos massacres do século XXI, contra populações civis encurraladas por Israel na Faixa de Gaza, a presença de Netanyahu a engrossar o ‘somos todos Charlie’ convida a pensar sobre o alcance das unanimidades.
É um silogismo barato afirmar que a recusa ao bordão dominante endossa o abismo ensandecido do terrorismo.
Num texto de 1911, ‘Porque os marxistas se opõem ao terrorismo individual’, e quando ainda nem desconfiava que ele próprio seria uma vítima futura, León Trostsky criticou exemplarmente aquilo que, nas suas palavras, ‘mesmo que obtenha "êxito" (e) crie confusão na classe dominante (...) terá vida curta; o estado capitalista não é eliminado; o mecanismo permanece intacto e em funcionamento. Todavia, a desordem que um atentado terrorista produz nas fileiras da classe operária é muito mais profunda. Se para alcançar os objetivos basta armar-se com uma pistola, para que serve esforçar-se na luta de classes? Se um pouco de pólvora e um pedaço de chumbo bastam para perfurar a cabeça de um inimigo, que necessidade há de organizar a classe? Se tem sentido aterrorizar os altos funcionários com o ruído das explosões, que necessidade há de um partido?’, criticava o líder da Revolução de Outubro, banido e assassinado por Stálin, para concluir em seguida: ‘Para nós o terror individual é inadmissível precisamente porque apequena o papel das massas em sua própria consciência e (desvia) seus olhos e esperanças para o grande vingador e libertador, que algum dia virá cumprir sua missão’.
Cento e quatro anos depois, o alerta ganha atualidade diante das medidas cogitadas após o massacre em Paris.
Os indefectíveis Le Pen, pai e filha, pedem, nada menos que a restauração da pena de morte, abolida em 1981.
A nostalgia da guilhotina é só o primeiro degrau do patíbulo.
O endurecimento contra os imigrantes, na verdade, já avançava em marcha batida antes do massacre da quarta-feira (07/01) .
Agora, porém, que ‘somos todos Charlie’, quem irá detê-lo –se até Netanyahu aderiu?
Ofuscados habilmente pelo ‘consenso’, os antecedentes da tormenta esticam o elástico de uma gigantesca armadilha histórica.
Desemprego com deflação e captura do Estado e da política pela alta finança.
É disso que se trata a tragédia europeia, vista de corpo inteiro.
A zona do euro enfrenta deflação recessiva; a Itália tem desemprego recorde; Alemanha e França assistem a uma espiral de xenófobia; Grécia tem 59% da juventude fora do mercado; Portugal tem 500 mil desempregados e Espanha devastou sua rede de proteção social.
Assim por diante.
Foi preciso que um economista moderado, Thomas Piketty, coligisse uma enciclopédia estatística do avanço rentista sobre a riqueza da sociedade para que o tema da desigualdade merecesse algum espaço –fugaz— no debate econômico e midiático sobre a crise europeia.
E mesmo assim colateral às decisões da troika, que estala o relho no lombo da cidadania e exige ordem unida ao abismo.
É sobre essa base de rigidez que a alavanca da tragédia move o curso da história.
Não Maomé, não Charlie Hebdo, não a juventude niilista.
Não os filhos de imigrantes pobres , que se convertem cada vez mais ao islamismo como ponto de fuga à meia cidadania da desordem neoliberal que nada tem a lhes propor hoje.
E não o fará amanhã também.
Entregue aos ajustes fiscais, na ressaca dos mercados após o fastígio neoliberal, a Europa é hoje um museu de lembranças do acolhimento humanitário e político, que a transformaria em legenda da civilização e da fraternidade.
Na Itália, sob o afável Berlusconi, o Estado elevou para seis meses o tempo que imigrantes ilegais podem ser detidos em ‘ centros especiais’ e autorizou a criação de falanges civis para “ajudar a polícia a combater o crime nas ruas”.
Na Grécia, onde as taxas de desemprego triplicaram sob o chicote de Frau Merkel, os integrantes do partido Aurora Dourada sequer dissimulam a inspiração nazista: sua faxina étnica avança contra árabes, africanos, ambulantes, ciganos e homossexuais.
‘Somos todos Charlie’?
As notícias contraditórias que chegam dos EUA, surfando em uma recuperação feita de empregos com salários aviltados, e da Europa sem Estado à altura para reagir, evidenciam a profundidade de uma desordem que não cederá tão cedo, nem tão facilmente.
A consciência dessa longa travessia é um dado fundamental para renovar a ação política em nosso tempo.
Recuos e derrotas acumulados pela esquerda mundial desde os anos 70, sobretudo a colonização de seu arcabouço pelos interditos neoliberais, alargaram os vertedouros ao espraiamento de uma dominância financeira que agora produz manifestações mórbidas em todas as esferas da vida.
Quando a economia se avoca um templo sagrado, dotado de leis próprias, revestido de esférica coerência endógena, avessa ao ruído das ruas, das urnas e das aspirações por cidadania plena, o que sobra à democracia?
A pauta dos mercados autorregulados revelou-se uma fraude.
Gigantesca.
Era o fim da história, replicava o colunismo áulico.
Não era, mostrou setembro de 2008.
Pior que isso.
O sete de janeiro francês avisa que se a sociedade continuar apartada do seu destino, os próximos capítulos serão dramáticos.
No Brasil, os que incitavam o governo a jogar o país ao mar em 2008, retrucam que o custo de não tê-lo afogado na hora certa acarretou custos insustentáveis.
E eles terão que ser pagos agora.
Na forma de um afogamento incondicional.
Recomenda-se vivamente beber a cota do dilúvio desdenhada em 2008 em uma talagada única.
Não há alternativa, diria Margareth Tatcher.
As escolhas intrínsecas a uma repactuação do desenvolvimento brasileiro, de fato, não são singelas.
Nada que se harmonize do dia para a noite.
Por isso, o crucial é erguer linhas de passagem, repactuar metas, ganhos, perdas, salvaguardas e prazos.
Mas há um requisito para isso: tirar a economia do altar sagrado da ortodoxia e expô-la ao debate democrático do qual participem todas as forças sociais.
Quando a mídia conservadora tenta tropicalizar o bordão ‘somos todos Charlie’, seu objetivo mal disfarçado vai no sentido oposto.
Tenta-se reduzir uma tragédia ciclópica a um atentado à liberdade de expressão.
E de forma rudimentar desdobrar a comoção aqui em um veto ao projeto de regulação da mídia brasileira.
Para quê? Justamente para interditar o debate sobre o passo seguinte do desenvolvimento do país.
O apego da emissão conservadora à liberdade de expressão, como se sabe, é relativo.
No dia seguinte ao massacre em Paris, a Folha de São Paulo, por exemplo, dedicou 256 palavras, uma nota de rodapé, para tratar do caso do blogueiro saudita, Raif Baddawi.
Baddawi dirigia o fórum on-line ‘Liberais Sauditas Livres’; foi condenado por isso a dez anos de prisão e multa de US$ 260 mil.
Seu caso é uma referência do padrão de justiça que impera na democrática sociedade saudita, principal aliada dos EUA no mundo árabe, onde mulheres não podem dirigir sequer automóveis e inexiste judiciário independente da vontade dos mandatários.
Além de dez anos de prisão, Baddawi também será punido com mil chibatadas por "insultar o Islã" – 50 por semana, durante 20 semanas.
A primeira cota foi aplicada na última 6ª feira.
Uma nota com 256 palavras foi tudo o que o liberal Baddawi obteve de um dos principais veículos de informação do país.
Compare-se com as cataratas de tinta, imagem e som dedicadas à blogueira cubana Yoani Sánchez que, livre, leve e solta, viajando pelo mundo, mereceu da mesma Folha de SP mais de 90 mil citações; 155 mil no Globo e 110 mil no Estadão.
É difícil imaginar algo do tipo ‘somos todos Baddawi’ alastrando-se pelo colunismo pátrio que dispensou às visitas de Yoani um tratamento de chefe de Estado.
São dois pesos e mil chibatadas.
Uma diferença sugestiva.
Que recomenda cautela com as unanimidades produzidas pela mesma fonte.
Aqui ou em Paris.
Origem. Publicado em 13/01/2015.
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Carta Maior [Saul Leblon]-> A crise se agrava: a hora do Brasil e a da mídia
Não se sabe qual o meio, ou a melhor maneira, o que não dá é para se ver um massacre midiático, sórdido e mentiroso, diariamente, e o Poder Central não reagir, ou não reagir à altura.
Carta Maior [Saul Leblon]-> A crise se agrava: a hora do Brasil e a da mídia
Urge rediscutir as bases desenvolvimento brasileiro e isso não se faz com um sistema emissor que interdita o debate e veta soluções.
por: Saul Leblon
Os interesses entrincheirados no bunker conservador urram, salivam e rosnam. Mas chegou a hora.
A hora do Brasil e a da mídia.
São ponteiros indissociáveis de um mesmo relógio histórico.
A crise mundial se espraia e se agrava.
A guerra do petróleo entre economias desesperadas é o novo front da desordem neoliberal.
Bombardeia-se o inimigo com volumes adicionais de óleo despejados no mercado.
O empoçamento da oferta diante de uma demanda exaurida por sete anos de crise sistêmica da ordem capitalista derruba as cotações.
Do petróleo e de tudo o que estiver pela frente.
Economias exportadoras de matérias-primas se comprimem e se dilaceram.
Ganha a guerra quem resistir ao preço mais baixo: Opep, xisto norte-americano, petróleo russo, barril bolivariano, pré-sal brasileiro...
Quem sobreviverá?
Ninguém sabe. Há interações econômicas e políticas específicas dentro de cada barril.
A estrutura de preço reflete estágios tecnológicos, escalas de reservas, mas também estruturas de poder e conflitos de interesse.
No Brasil, o barril do pré-sal embute a eficiência tecnológica da Petrobras, de um lado.
De outro, espelha a ordem unida de um conservadorismo determinado a usar o pé de cabra do combate à corrupção para implodir a regulação soberana dessas reservas.
Os black-blocs anti-estatal agem como se não houvesse amanhã.
A ordem é queimar tudo.
O país precisa rediscutir as bases do seu desenvolvimento, para que a sociedade possa repactuar o passo seguinte de sua história e preservar seus trunfos da sanha demolidora e cega.
Isso não se faz com um sistema emissor que interdita o debate e veta antecipadamente as ideias, lideranças e políticas que afrontam os interesses por ele representados.
A crispação do discernimento social, fomentada pela infusão cotidiana de intolerância e incerteza, semeia o fatalismo e a rendição. Embota consciência crítica. Ofusca o esclarecimento argumentativo.
Insufla a prostração da sociedade na construção do seu destino.
O conjunto enrijece a encruzilhada econômica brasileira.
O dispositivo midiático chantageia e entorpece ao mesmo tempo e com igual intensidade.
Desenha o dragão do caos e vende a fraude de que as tesouras criteriosas de Joaquim Levy cuidarão de domá-lo.
O piloto proficiente cuidará de aliviar a carga da aeronave brasileira, garantindo a travessia da turbulência sem renunciar à rota feita de ajuste fiscal, juros siderais, fim dos incentivos anticíclicos, do crédito subsidiado etc etc etc.
Em caso de despressurização, mantenham-se calmos, com os cintos afivelados.
Máscaras de oxigênio não cairão a sua frente...
Boa viagem!
Antes que os contatos com a torre sejam interrompidos, é recomendável avaliar o custo/benefício dos mapas de voo em litígio num mundo em conflagrada gincana para o imponderável.
É nessa intersecção da disputa política e econômica que avulta a importância inexcedível das relações entre mídia e democracia, mídia e oligopólio, mídia e soberania, mídia e repactuação do desenvolvimento brasileiro.
São temas que se entrelaçam e se reconfiguram.
O Brasil não atravessará o Rubicão que se avizinha sem perdas e danos.
Terá que eleger prioridades, prazos, salvaguardas, concessões e metas a preservar.
Quem decidirá a rota e ajustará o percurso a cada solavanco?
Uma ampla repactuação democrática do modelo de desenvolvimento?
Ou as oficinas Levy e Associados?
A opção democrática, à altura da crise em curso, inclui como requisito o arejamento regulatório do ambiente midiático.
A urgente reordenação desse poder que rejeita qualquer contrapeso – ao contrário de todos os demais -- assenta-se em uma premissa adicionada de urgência inquestionável pela crise.
Uma verdadeira democracia não pode existir sem diversidade e pluralidade de informação.
O país não avançará nas transformações econômicas e sociais requeridas pela desordem neoliberal se não capacitar o discernimento político, entre outros, de mais de 60 milhões de homens e mulheres que saíram da pobreza ou ascenderam na pirâmide da renda e agora aspiram à plena cidadania.
A preservação do atual poder de veto que a emissão conservadora acumulou ao longo da história tornou-se um dos mais sérios gargalos ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.
Leia tudo.
Carta Maior [Saul Leblon]-> A crise se agrava: a hora do Brasil e a da mídia
Urge rediscutir as bases desenvolvimento brasileiro e isso não se faz com um sistema emissor que interdita o debate e veta soluções.
por: Saul Leblon
Os interesses entrincheirados no bunker conservador urram, salivam e rosnam. Mas chegou a hora.
A hora do Brasil e a da mídia.
São ponteiros indissociáveis de um mesmo relógio histórico.
A crise mundial se espraia e se agrava.
A guerra do petróleo entre economias desesperadas é o novo front da desordem neoliberal.
Bombardeia-se o inimigo com volumes adicionais de óleo despejados no mercado.
O empoçamento da oferta diante de uma demanda exaurida por sete anos de crise sistêmica da ordem capitalista derruba as cotações.
Do petróleo e de tudo o que estiver pela frente.
Economias exportadoras de matérias-primas se comprimem e se dilaceram.
Ganha a guerra quem resistir ao preço mais baixo: Opep, xisto norte-americano, petróleo russo, barril bolivariano, pré-sal brasileiro...
Quem sobreviverá?
Ninguém sabe. Há interações econômicas e políticas específicas dentro de cada barril.
A estrutura de preço reflete estágios tecnológicos, escalas de reservas, mas também estruturas de poder e conflitos de interesse.
No Brasil, o barril do pré-sal embute a eficiência tecnológica da Petrobras, de um lado.
De outro, espelha a ordem unida de um conservadorismo determinado a usar o pé de cabra do combate à corrupção para implodir a regulação soberana dessas reservas.
Os black-blocs anti-estatal agem como se não houvesse amanhã.
A ordem é queimar tudo.
O país precisa rediscutir as bases do seu desenvolvimento, para que a sociedade possa repactuar o passo seguinte de sua história e preservar seus trunfos da sanha demolidora e cega.
Isso não se faz com um sistema emissor que interdita o debate e veta antecipadamente as ideias, lideranças e políticas que afrontam os interesses por ele representados.
A crispação do discernimento social, fomentada pela infusão cotidiana de intolerância e incerteza, semeia o fatalismo e a rendição. Embota consciência crítica. Ofusca o esclarecimento argumentativo.
Insufla a prostração da sociedade na construção do seu destino.
O conjunto enrijece a encruzilhada econômica brasileira.
O dispositivo midiático chantageia e entorpece ao mesmo tempo e com igual intensidade.
Desenha o dragão do caos e vende a fraude de que as tesouras criteriosas de Joaquim Levy cuidarão de domá-lo.
O piloto proficiente cuidará de aliviar a carga da aeronave brasileira, garantindo a travessia da turbulência sem renunciar à rota feita de ajuste fiscal, juros siderais, fim dos incentivos anticíclicos, do crédito subsidiado etc etc etc.
Em caso de despressurização, mantenham-se calmos, com os cintos afivelados.
Máscaras de oxigênio não cairão a sua frente...
Boa viagem!
Antes que os contatos com a torre sejam interrompidos, é recomendável avaliar o custo/benefício dos mapas de voo em litígio num mundo em conflagrada gincana para o imponderável.
É nessa intersecção da disputa política e econômica que avulta a importância inexcedível das relações entre mídia e democracia, mídia e oligopólio, mídia e soberania, mídia e repactuação do desenvolvimento brasileiro.
São temas que se entrelaçam e se reconfiguram.
O Brasil não atravessará o Rubicão que se avizinha sem perdas e danos.
Terá que eleger prioridades, prazos, salvaguardas, concessões e metas a preservar.
Quem decidirá a rota e ajustará o percurso a cada solavanco?
Uma ampla repactuação democrática do modelo de desenvolvimento?
Ou as oficinas Levy e Associados?
A opção democrática, à altura da crise em curso, inclui como requisito o arejamento regulatório do ambiente midiático.
A urgente reordenação desse poder que rejeita qualquer contrapeso – ao contrário de todos os demais -- assenta-se em uma premissa adicionada de urgência inquestionável pela crise.
Uma verdadeira democracia não pode existir sem diversidade e pluralidade de informação.
O país não avançará nas transformações econômicas e sociais requeridas pela desordem neoliberal se não capacitar o discernimento político, entre outros, de mais de 60 milhões de homens e mulheres que saíram da pobreza ou ascenderam na pirâmide da renda e agora aspiram à plena cidadania.
A preservação do atual poder de veto que a emissão conservadora acumulou ao longo da história tornou-se um dos mais sérios gargalos ao passo seguinte do desenvolvimento brasileiro.
Leia tudo.
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domingo, 14 de dezembro de 2014
Saul Leblon[Carta Maior]: Matar, picar e salgar a Petrobras
| Antônio Cruz / EBC |
Lucidez para se ver!
11/12/2014 00:00 - Copyleft
Saul Leblon: Matar, picar e salgar a Petrobras
Não se mira a lisura na gestão pública. Fosse isso o clamor da faxina viria associado à defesa da reforma política e do pré-sal. O alvo é outro.
por: Saul Leblon
A emoção da Presidenta Dilma na cerimônia de entrega do Relatório da Comissão da Verdade, nesta 4ª feira, condensa camadas de angústia de quem conheceu de perto o horror de ser mastigada por forças incontroláveis.
O chão tinto de sangue do banheiro onde foi jogada após as sessões de tortura ficou impregnado na memória da jovem ativista de 19 anos.
Presa em 1970, ela foi manuseada por quase três anos na máquina de sadismo que matou 434 pessoas no Brasil, perseguiu milhares de outras, submeteu a sociedade a um regime de arrocho, terror, censura e medo.
As lágrimas incontidas desta 4ª feira, miravam o passado dos que foram supliciados como ela; o eterno presente dos familiares dos desaparecidos, ‘que sofrem como se eles morressem de novo, e sempre, a cada dia’; mas também, é muito provável, carregavam a angústia da chefe da nação diante da encruzilhada brasileira atual.
O sonho dos vivos e dos mortos desafia a mulher madura que hoje se prepara para assumir o segundo mandato presidencial e sabe o quanto é imperativo manter uma nação a salvo de forças incontroláveis.
Sabe, sobretudo, que elas não se manifestam mais apenas na forma do totalitarismo policial. -
A supremacia do poder financeiro no século XXI pode sequestrar o destino de uma nação através de fluxos financeiros à paisana.
E impor a sua vontade, interditos históricos, e os mesmos custos sociais de um Estado ditatorial.
O passado, o presente e o futuro se entrecruzam nesse momento a evidenciar que o Brasil vive um divisor nessa história.
Um ciclo de expansão se esgotou, um outro pede para ser construído.
Pendências novas e antigas se misturam em meio a um cenário mundial adverso.
A variável determinante passa pela velocidade imprevista da transição chinesa.
A sensação de que tudo está despencando não é fora de propósito.
É como se o mastro que ancorava a lona da economia global de repente afundasse.
O motor asiático investia, em média, cerca de 45% do PIB e importava outros 10% em matérias-primas para saciar sua fornalha.
O velocímetro do seu crescimento recuou de 11% para perto de 7% ao ano.
O ritmo da freada sugere que poderá recuar ainda mais.
O tranco derruba as cotações das commodities nos cinco continentes.
As agrícolas estão em média 15% abaixo do piso declinante de 2013. O custo barril de petróleo ficou 40% mais barato desde junho.
Caiu mais um pouco nesta 4ª feira.
O freio de arrumação vai desativar poços ineficientes que flutuavam sobre uma demanda a US$ 120/barril.
O canal externo da economia nos países exportadores de óleo, metais e alimentos foi comprimido.
Em muitos deles, estreitou-se a margem de manobra de políticas associadas a um projeto de desenvolvimento com repartição de renda.
A descrição se encaixa nas características do modelo em curso na América Latina, pilotado por um colar de governos progressistas que mudou a geopolítica regional.
Em 2014, pela primeira vez em dez anos, segundo a OCDE, o PIB médio da região terá um crescimento inferior à expansão, já medíocre, prevista para as economias ricas: poderá situar-se abaixo de 1,5%.
O Brasil será atingido pela queda nas cotações e no volume dos embarques de minérios e grãos. Mas também de produtos manufaturados vendidos a parceiros latino-americanos em idêntico apuro.
O raciocínio não vale para o caso da Petrobrás.
Sobretudo, não vale para o pré-sal, que opera com tecnologia de ponta e risco zero em cada poço, sendo viável a partir de um barril em torno de U$45/50.
A escala gigantesca das reservas é outro diferencial quando cálculos de amortização de custos tem que ser refeitos.
O número mais comedido estima em 45 bilhões de barris o total recuperável das reservas descobertas a seis mil metros da superfície, no fundo do oceano. Estimativas não descabidas falam em algo como o dobro disso.
O fato é que o pré-sal oferece o melhor horizonte de desenvolvimento para a indústria de petróleo no mundo.
A taxa que mede isso mostra que ele garante 88% de óleo recuperável sobre o total existente, contra 75% na Arábia Saudita, 65% na Rússia e 55% nos EUA.
O avanço do xisto norte-americano mexe com a demanda mundial, mas não altera o trunfo das vantagens comparativas, que inclui o domínio brasileiro da tecnologia de ponta em águas profundas.
O conjunto compõe o chão firme sobre o qual se desenvolve o maior projeto de investimento empresarial do planeta na atualidade.
Repita-se: o maior plano de investimento em curso no século XXI, feito por uma única corporação, é o da Petrobras.
Algo em torno de U$ 200 bilhões de dólares serão aplicados pela estatal em exploração e produção, entre 2014 e 2018.
Cerca de US$ 12 bilhões de dólares terão que ser financiados no mercado internacional.
Caso o mergulho das commodities ganhe a parceria de uma elevação nas taxas de juros nos EUA, o custo desse financiamento poderá impor algum freio no ritmo da exploração.
Mas não a ponto de inviabilizar as suas referências estratégicas de longo prazo.
Entre elas inclua-se a insubstituível necessidade de uma oferta estável de petróleo para que a humanidade possa realizar a transição rumo a energias renováveis, sem atropelos de abastecimento ou explosão de custos.
O pré-sal e o seu modelo de regulação soberana, acoplado à exigência de conteúdo nacional, continuam a figurar como o bilhete premiado do desenvolvimento brasileiro.
Mais que isso.
Talvez representem o derradeiro impulso industrializante capaz de rejuvenescer a sua base competitiva, garantindo o excedente necessário à finalidade social do crescimento.
O tesouro não contradiz, antes explica a angústia que talvez tenha contribuído para a demonstração incomum de emotividade da Presidenta da República na cerimônia da Comissão da Verdade.
A exploração conservadora dos casos de corrupção dentro da empresa pode inviabilizar esse trunfo contracíclico no momento em que a China desacelera, a Europa deflaciona e a recuperação norte-americana se faz com elevada desigualdade social.
Fomentar uma crise de confiança no país para atingir o governo Dilma é a estratégia do terceiro turno em marcha.
Desqualificar a Petrobrás, e o projeto de desenvolvimento que ela pilota, é a pedra basilar do mutirão graúdo.
Não se mira a lisura na gestão do dinheiro público.
Fosse isso o clamor da faxina viria associado à defesa da reforma política, do pré-sal e do que ele significa para o crescimento, a educação e a saúde.
O alvo é outro.
Trata-se de usar o pé-de-cabra da corrupção para derrubar um governo, e escancarar portas que permitam ao capital estrangeiro servir-se do pré-sal como um banco de sangue na transfusão requerida pela riqueza papeleira.
A angústia estampada no rosto crispado da Presidenta da República nesta quarta-feira refletia o desfile dos vivos e dos mortos; mas também do sonho brasileiro que os mobilizou.
O risco de vê-lo escapar é real.
A curetagem conservadora pode anular a alma de uma nação se conseguir convencê-la a rastejar por debaixo de suas possibilidades históricas.
A Petrobras sozinha representa mais de 10% de todo o investimento brasileiro em 2014, estimado em insuficientes 18,5% do PIB.
As empreiteiras associadas ao esquema de corrupção da estatal, segundo cálculos rápidos do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, estariam ligadas a um conjunto de obras em diferentes setores que somariam quase a metade da taxa de investimento prevista para o ano.
‘É importante o rigor com os envolvidos na corrupção; mas as empresas, a exemplo da Petrobras, e assim como se faz nos EUA, não podem ser inviabilizadas. Há um risco real de paralisar o país’, diz Belluzzo que discorda da orientação ministerial de sua amiga, ex-aluna e Presidenta da República.
Um aperto fiscal e monetário agora, pondera o economista, reforça a ameaçadora dinâmica do estrangulamento recessivo: ‘Tínhamos que reagir com um forte investimento público, mas cedemos ao senso comum’, diz com desacordo: ‘É como se coisas movessem os humanos e não o contrário. A hierarquia só será recomposta quando o desemprego bater nas ruas’.
O conservadorismo opera diuturnamente para reforçar essa coisificação da economia e assim sepultar qualquer disposição para enfrentar dogmas e interditos.
O matadouro é visível até a um bife a Camões.
Trata-se de espremer Dilma e tanger o PT, obrigando-os a pensar pequeno.
Pensar um futuro menor que o país.
Uma segunda gestão de Dilma menor que as possibilidades e urgências da Nação.
Com um programa menor que a ponte necessária para saltar da prostração ao discernimento de um pacto feito de prazos, salvaguardas, reformas e metas críveis de crescimento.
Se pensar pequeno, o Brasil corre o risco de caber no projeto conservador.
E emergir do outro lado na lista dos desaparecidos da Comissão da Verdade, com um adendo:
‘O sonho da democracia social brasileira’.
Não é impossível que a Presidenta Dilma tenha vislumbrado esse risco na cerimônia de hoje.
A ver.
Origem.
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