22 de agosto de 2012

Carta Maior[Saul Leblon]: Perguntas que cruzam os ares do Brasil


Perguntas que cruzam os ares do Brasil

Durante três décadas, o conservadorismo e o dinheiro desregulado despejaram sobre a humanidade seu arroto de peru, submetendo-a a uma dieta rala de mortadela, como requisito ao ingresso no reino dos mercados virtuosos e autorreguláveis.

Mais de US$ 12 trilhões depois, despendidos no resgate de instituições e bancos falidos desde 2008, ademais de 30 milhões de empregos queimados na fogueira ortodoxa, o mundo aspira ao passo seguinte da história.

A tarefa cabe à esquerda, aos democratas e progressistas; seus pés tateiam entre o desarmamento ideológico e a crise econômica mais grave desde 1929. Dada a pinguela estreita da relação de forças, qual será a macroeconomia capaz de inscrever no desenvolvimento a salvaguarda inadiável que resguarde o futuro com um crescimento que produza justiça social e preserve os bens comuns da humanidade?

O olhar da esperança mira as nações do sul. Com as deficiências e hesitações sabidas, o Brasil de Dilma, a Argentina de Cristina, entre outros, emergem como os mais aptos a uma travessia que ensaiaram na forma de uma transição branda antes de 2008, e agora urge acelerar.

Desafios empilhados em distintas frentes remetem a um mesmo imperativo reordenador das relações entre o Estado, o mercado e a democracia : trata-se de suprimir espaços à incerteza gerada pelo vale tudo do dinheiro; regular a economia, o investimento, os bancos, as comunicações, o uso dos recursos que formam as bases da vida na terra.

A desordem neoliberal não cessa de cobrar urgências. Uma delas remete diretamente à agenda que deveria centralizar o debate político no horário eleitoral que começou nesta 3ª feira: relatório da ONU informa que a América Latina e o Caribe formam a região mais urbanizada do mundo: 80% da população local (588 milhões de pessoas) vive em cidades.

O Brasil lidera e exorbita: 85% dos habitantes estão em áreas urbanas; serão 90% até 2020. A região tem conseguido ainda assim obter avanços sociais, mas há limites estruturais acantonados na próxima esquina do crescimento. O economista Dan Rodrik em artigo recente lembra que o avanço tecnológico limitará cada vez mais a capacidade da indústria de absorver a mão de obra disponível nas cidades. "

Será impossível, para a próxima geração de países industrializados", diz ele, "deslocar 25% ou mais de sua força de trabalho para atividades de manufatura, como fizeram as economias do Leste Asiático" (a China em especial). A urbanização selvagem, fruto de ditaduras e desequilíbrios fundiários seculares, encerraria assim um alívio: no Brasil, a exemplo de outros, o mal está feito, trata-se agora de cuidar das cidades, fortalecer o binômio industrialização/educação como requisito de produtividade e eficiência capaz de impulsionar um poderoso setor de serviços. O consolo só é verdadeiro em parte.

Nação mais urbanizada entre os gigantes do planeta, com 85% da população nas cidades, o Brasil ainda preserva quase uma Argentina no campo, com mais de 30 milhões de pessoas. Esse pedaço importante do país está reunido em Brasília neste momento para debater o seu destino (leia nesta pág.).

No Encontro Unitário dos Trabalhadores, Trabalhadoras e Povos do Campo, das Águas e das Florestas e no horário político eleitoral, iniciado nesta 3ª feira, entrelaçam-se as duas principais perguntas de uma transição que tem pressa para começar: qual a política urbana capaz de construir o pós-neoliberalismo nas cidades? Qual a reforma agrária capaz de devolver pertinência a essa bandeira no século XXI? E, sobretudo, que forças reúnem desassombro e competência para agregar as respostas num projeto crível de futuro que conquiste corações e mentes da sociedade em nosso tempo? Origem.

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