24 de setembro de 2014

Artigo: JT Palhares: Sete Narizes

Sete narizes

 nariz

   Algo cheirava mal no Reino de Araque. Após disputa entre o Príncipe e os cidadãos por questões de planejamento urbano, diante da falta de transparência visando acobertar o tráfico de informações privilegiadas na compra e venda de lotes na Colina da Gola Verde, extensa área de terra desapropriada para construção do novo Palácio da Administração, o escultor, poeta e filósofo R.B. Furtado espalhou moldes de seu próprio nariz pelos muros e paredes da cidade. Aquele que encontrasse os sete narizes, reza a lenda, seria agraciado com riqueza financeira. Eu os encontrei, mas isso seria a minha ruína. 


Naquele tempo de abutres atropelados por aeronave fantasma, ovelhas azuis lambiam as últimas gotas barrentas da Cantareira, enquanto Pinto, o pequeno, atolado em dívidas, ciscava no terreiro da fazenda em busca de grana.

Ainda era de madrugada, quando Al Arak, furioso por ter sido acordado uma hora antes do meio-dia, emitiu correio telegráfico: “Demita os faxineiros, crie mais cinco mil cargos e dobre o salário dos comissionados”.

E assim foi feito. Talvez por desejo de imitar Calígula, dizem, nessa mesma época o Príncipe dos Nababos nomeou um jegue para a Superintendência de Pesos e Tarefas. Ninguém entendia nada do que ele falava, mas o quadrúpede recebia 35 mil pratas por mês para abrir e fechar palestras.

A título de esclarecimento, cinco anos antes do tempo em que escrevo, o Príncipe de Araque, preocupado com a situação falimentar do Reino, mandara erguer um novo Palácio de dois bilhões de dracmas sem consultar o povo ignorante, que decerto preferiria desperdiçar o dinheiro dos tributos em saúde e educação — problemas habilmente contornados pelo governante quintuplicando-se os gastos com publicidade, obtendo assim o mágico resultado de fazer com que os súditos habitassem o mundo feliz da propaganda.

Pagar em dia os juros da dívida, zerar o déficit que não parava de crescer — isso é obrigação de todo governante, basta torturar os números que o superávit logo aparece.

Preciso fazer com que os jornais publiquem somente o que me favoreça — decidiu-se Arak.



Ninguém melhor para executar engenhosa tarefa, senão Kassandra, a Mandachuva da Imprensa. A feiosa não perdeu tempo: paparicou com generosas verbas os jornais amigos, e mandou prender, empastelar, amordaçar e arrebentar a mídia oposicionista, bloqueando acesso aos sítios pagãos onde os desafetos se reuniam para entoar cânticos contra o governo do irmão.

Aproximava-se o dia da eleição do homem mais bonito do Reino. Oportunidade única para desmascarar o tirano, sempre ocupado com a aparência. Durante uma festa pantagruélica, auxiliado por um garçom amigo, infiltrei-me no Castelo de Taras. Durante a madrugada, escondi-me no quarto do soberano.

Por volta de treze horas o príncipe deixou o banho e entrou no quarto. Havia ali um grande espelho. Agradava-lhe a imagem refletida: olhos negros, cabelos castanhos e revoltos, a pele rejuvenescida por aplicações de botox, no rosto nenhuma ruga de preocupação.

— Espelho cristalino, diga-me, o que devo fazer para derrotar aquelas duas feiosas? — perguntou para si mesmo, referindo-se às adversárias, Bulgra Karloff e Lagartixa Verde, cada uma com seus poderes e feitiçarias: a primeira, dona de varinha mágica, capaz de mover montanhas de grana; a outra, lagartixa da floresta, quando confrontada exalava uma cortina de fumaça verde, inebriando ateus e crentes.

Espremido entre roupas e caixas de sapato, eu não possuía visão completa do aposento. Estando de cócoras, levantei-me com cautela, afastando um pouco a cortina, e só então pude reparar melhor: o príncipe estava sem o nariz!

Abaixo dos olhos, no ponto da face onde se dividia o septo nasal, dois buracos esbranquiçados, e nada de nariz! Incrédulo, continuei atento. Nem se eu quisesse conseguiria fechar meus olhos para o fato: o príncipe Al Arak era um ser biônico.

Se vocês estão lendo este relato é porque estou morto ou apodrecendo nas masmorras do Castelo. Como jornalista, de que me valeria descobrir que o Rei está nu se eu não pudesse contar para ninguém? O que vou lhes revelar é segredo de Estado: todas as noites, ao retornar da balada, o Príncipe tirava o nariz antes de ir para a cama.

Ao contrário de Kovaliov, cidadão russo que perdera o nariz nas ruas de São Petersburgo, Arak não entrou em desespero. O extraordinário, no entanto, ainda estava por acontecer.

Foi então que eu vi, com os olhos quase saltando das órbitas, o momento em que o Príncipe acionou um mecanismo por detrás do espelho. Ouviu-se um estalido. A superfície do espelho deslizou para a direita, revelando uma coleção de narizes, um para cada dia da semana!

— Que dia é hoje? Oh, mas que cabeça, ontem eu fui ao baile de Máscaras na Casa da Turca…

Sanada a dúvida mundana, o Príncipe extraiu o objeto adiposo do cabide onde se lia “quarta-feira”. Examinou o nariz, removendo uma película protetora. Olhos fixos no espelho, com dois movimentos precisos, direita, esquerda, Al Arak encaixou a cartilagem artificial no centro da face. Depois, com a boca fechada, aspirou profundamente o ar pelas narinas, soltando do mesmo modo, e com toda força, o ar nos pulmões acumulado. O nariz funcionava perfeitamente.

— Espelho cristalino, responda-me uma pergunta somente: se sou o mais belo e inteligente, por que lhe parece impossível que eu seja eleito presidente?

Ato contínuo, como se estivesse a ensaiar discurso para a campanha do homem mais bonito do reino, Al Arak treinou sua retórica, enchendo o recinto com dúzias de clichês políticos…

Nota: esta é uma obra de ficção, a semelhança com o nariz de qualquer pessoa de carne e osso é mera coincidência.

JT Palhares em 12/09/2014, enviado nesta data.

Do mesmo autor: A MALDIÇÃO DE AÉCIO 

Premonição em 12 de janeiro de 2012!

Acertará???!!!! 

JT Palhares é um antigo articulista da REFAZENDA2010. Está voltando agora com o seu brilhantismo habitual!


A MALDIÇÃO DE AÉCIO

A presidência caiu no colo de Tancredo por obra e graça dos militares, como efeito retardado da segunda bomba que não explodiu no Rio Centro. Devido ao seu perfil conciliador, Tancredo era o político ideal para que os milicos garantissem o controle da situação, durante a transição de uma Ditadura Envergonhada para uma Ditadura Consentida. Conciliação era a palavra chave. A mesma conciliação que garantiria a impunidade dos militares brasileiros, os únicos da América Latina a serem anistiados pelo Supremo Tribunal Federal por crimes imprescritíveis contra a Humanidade. Consenso é o pavor do que não se expressa, já dizia Derrida.

Essa conversa de conciliação, aliada ao papo de ser a presidência um destino e não uma escolha, marcou o espírito de Aécio como uma martelada na cabeça. 
Naquele momento crucial, "DIRETAS JÁ!", passeatas, comícios com a presença de grandes cantores da MPB, Tancredo representou de forma excepcional o papel de Lavador de Almas, “o escolhido", o homem disposto a subir no cadafalso do Colégio Eleitoral em prol do povo brasileiro.

A emoção estava no ar, vinte e quatro horas. Os especialistas em manipular massas sabem que a emoção é uma droga, que se bem administrada alastra-se como vício, gerando no usuário o desejo de reviver os momentos trágicos ou mágicos, a depender do desfecho da picada. De uma forma ou de outra, a âncora da emoção sempre deixa sua marca irrevogável na mente do cliente.

O desfecho da transição democrática vocês já conhecem: trinta e oito dias de agonia, tudo filmado e refilmado à exaustão, Tancredo sendo exibido como um boneco sem fala pelos médicos do Hospital de Base de Brasília em foto tirada no dia 25 de março de 1985, até a comoção causada pelo anúncio da morte e o sepultamento do corpo do Presidente em São João Del Rey.
A morte do avô carimbou profundamente o destino político de Aécio, que passou a se enxergar sempre pela ótica de Tancredo: "o melhor presidente que o Brasil nunca teve”. Desde então, Aécio está condenado a repetir o destino manifesto de Tancredo: continuar sendo o que sempre foi sem nunca chegar a ser o que poderia ter sido. Confuso, não?

Nem tanto, foi mais ou menos essa a resposta que Aécio deu ao jornalista Josias de Souza: “tenho dificuldade de entender as surpresas ou frustrações que alguém possa ter com o fato de eu continuar sendo o que sempre fui e fazer o que sempre fiz na minha vida pública”.

Ou seja, Aécio quer continuar fazendo o que sempre fez: (insira aqui a palavra que exprime a relevância de Aécio para a renovação política brasileira).

Basta que Aécio mantenha o seu nome nas bocas, frequente as passarelas, fuja do debate, não entre em polêmicas, e no momento propício, ao contrário da onda que se quebra na areia, Aécio continuará sendo de novo do jeito que sempre foi um dia. Ficou mais confuso? Paciência, a História dá voltas em espiral, o mesmo aconteceu com Tancredo, político dotado de uma habilidade incrível para se colocar sempre no lugar certo nas horas mais incertas.

Repetindo, pra frisar bem, Aécio não se livrou da maldição do avô, maldição que consiste em ser o que se é sem nunca chegar a ser o que poderá ter sido. Daí a importância da morte. Aliada secreta, a morte com sua foice é o ponto de irrigação política do nome de Aécio, figura responsável por manter acesa a chama de uma candidatura à presidência cada vez mais distante.

Dia desses o Jornal Estado de Minas soltou uma nota falando que Aécio poderá se candidatar ao Governo de Minas em 2014.

Já dizia Lulu Santos, “não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo”. Pois então, Aécio, para se encontrar com seu destino, viabilizando-se como candidato a Presidente, depende da morte de terceiros. Não apenas da morte biológica, mas também da morte de modelos, do esgotamento de alianças. Por isso Aécio está sempre se movendo nos bastidores, buscando cooptar aliados entre os apoiadores do Governo atual, preservando de críticas os ministros mais incompetentes, de olho nas rebarbas políticas. Quando as portas da História se abrirem para ele, Aécio não terá pudores em se aliar às mesmas forças fisiológicas que sustentaram o Governo do PT desde a ascensão de Lula. Desde que seja para o bem do povo, Aécio não se importaria de ser eleito Presidente sem romper com as forças políticas mais retrógradas.

Mas, para que o plano secreto de Aécio dê certo, é preciso que algo de extraordinário aconteça. Em se tratando de possíveis candidatos a uma morte extraordinária, esse defunto não precisa necessariamente ser o do José Serra, pode ser a morte simbólica de um modelo de governo, de um projeto político, ou até mesmo o passamento de um líder popular, fazendo por linhas tortas com que a bola da Presidência caia no peito de Aécio.

Quando esse fato extraordinário acontecer, e Aécio tiver a chance de tornar-se Presidente do Brasil por força do acaso, como deu-se com Tancredo, a maldição legada ao neto pelo avô terá chegado ao Fim.

Pena que quando esse dia chegar, Aécio estará com 76 anos. E no dia anterior à sua posse como Presidente da República, Aécio inventará de comemorar a vitória surfando em uma praia escondida da Austrália, e ele, relembrando os tempos em que surfava no Rio, arriscará uma manobra arrojada, perderá o controle da prancha e baterá com a cabeça numa pedra, vindo a morrer na praia como sempre sonhou.


JT Palhares

Atualizado em 05/10/2014

Da Tribuna de Minas de Juiz de Fora em http://www.tribunademinas.com.br