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quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

JT Palhares: Crônica do último dia de abastecimento

JT Palhares nos brinda novamente com um artigo mortal! Desmistificador e autoexplicativo. Vale lembrar que Minas não votou no rio45!

Sobre o desgoverno que se finda, veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui!

Tem muito mais, mas não localizamos. Escusas!

O Editor!

Crônica do último dia de abastecimento

 
 
 
Imagine uma cidade com 12 milhões de habitantes, motor financeiro do país, sem água. Você abre a torneira e não sai uma gota de água pra beber ou pra fazer a barba.

Nessa selva de aço engarrafado, somente um mutante imberbe, sangue de lagartixa, resistente ao aquecimento global e dotado da capacidade genética de se hidratar bebendo petróleo no canudinho teria condições de sobrevivência.

Mundo cruel, renda concentrada, recursos escassos, os pobres são esterilizados no ventre da genitora. As mulheres disponíveis para procriação desfilam uma vez por ano no salão do automóvel. Que tipo de homem estaria interessado em perpetuar a espécie com uma fêmea que se expõe como acessório de carro de luxo?

Deus, o homem ou o diabo. Quem entornará o último copo, antes que este mundo vá para o saco?

Seja quem for, a biografia de Geraldo Alckmin, a ser publicada em dois volumes, ficará para sempre enlameada pelo Volume Morto da Cantareira.

Verão de 2014; o paulista aguarda o embarque do amigo nordestino, este de volta para Campina Grande, depois de 12 anos trabalhando em uma metalúrgica. A rodoviária do Tietê lotada. Os dois amigos, sentados na mesa de um bar, espremidos entre engradados de cerveja, tristes figuras em quadro de Edward Hopper. No centro da mesa, apenas um copo vazio, copo talvez esquecido pela garçonete, ou simplesmente à espera de uma garrafa de água. O nordestino a rolar o copo em cima do forro encardido; o outro, olhos no teto, buscava palavras para convencer o amigo a não voltar para o dilúvio do sertão. Diante da cena, com a vênia de Nelson Rodrigues, a frase me veio à mente como pedrada de granizo na cabeça: não existe solidão maior do que a de um nordestino acompanhado de um paulista na rodoviária.

Da gestão enxuta de São Paulo para o Museu do Choque de Gestão, a História da Administração Pública em Minas Gerais será contada em dois momentos: antes e depois do Choque de Gestão (a.CG, d.CG).

Para completar o quadro de 17 mil servidores necessários ao funcionamento da Cidade Administrativa, inaugurada em fevereiro de 2010, o tucanato mineiro viu-se obrigado a “comissionar” três em cada cinco servidores nas principais secretarias de governo.

Antes do Choque de Gestão, por exemplo, o consumo de combustível da frota da Secretaria de Fazenda era controlado da seguinte forma: todo último dia útil do mês, o fiscal que acumulasse a função de motorista, ou seja, aquele que estivesse na posse da chave do carro no último dia útil do mês, era obrigado a abastecer o veículo oficial.

Como assim?

— É para estabelecer a média de consumo do mês — respondia a Supervisora.

E todos repetiam a mesma cantiga, como se a Matemática não fosse uma ciência exata, mas a ciência do meio termo. Antes de 2003, para se calcular a média do consumo de combustível no mês era imprescindível a realização de dois abastecimentos: um no último dia do mês anterior e outro no último dia do mês subsequente.

A ignorância é um dom distribuído democraticamente. Como éramos auditores e sabíamos fazer conta na calculadora, se fosse o último dia útil do mês, só nos restava pegar a chave do veículo oficial e ir abastecê-lo, antes de cumprir a missão de fiscalizar o contribuinte nos moldes do artigo 196 do CTN.

Lembro-me de uma ocasião em que três auditores estavam de saída, apressados para realizar busca e apreensão de documentos. A viatura fiscal, um Fiat Uno modelo 1989, havia sido abastecida na tarde do dia anterior. Mas aquele era o fatídico dia de abastecimento. A funcionária do setor passou de sala em sala, balançando uma cópia da Resolução:

— Não se esqueçam! Hoje o veículo tem que ser abastecido até as 11h00!

— Mas o tanque está cheio!

— Não importa, coloque nem que seja R$ 1,00 de gasolina, pra fecharmos o relatório. Senão a DAC nos mata! — DAC era a sigla da poderosa Divisão Administrativa e Contábil, subordinada à Superintendência Regional.

Instalou-se o dilema: cumprimos a missão ou abastecemos o veículo?

Cumpriu-se a busca e apreensão. E os fiscais ainda conseguiram abastecer o veículo oficial antes das 11h00.  Como sempre, a operação fiscal foi um sucesso.

Com o advento do Choque de Gestão, toda vez que o Auditor Fiscal tivesse necessidade de fazer diligência utilizando o veículo oficial, e se a diligência envolvesse o pagamento de diária, instalava-se uma Comissão, composta pelo Superintendente, Coordenador Regional, Delegado Fiscal e Coordenador de Fiscalização.

Normalmente, depois de programada, registrada, e desde que fornecidas explicações necessárias, a diligência demorava apenas três dias para ser aprovada.

Graças ao Choque de Gestão, a racionalidade vicejou nas Alterosas. Medidas rigorosas foram adotadas para se controlar o custeio da máquina, e os resultados vieram a galope. Com os ajustes promovidos pelos tucanos a partir de 2003, já em setembro de 2014 Minas devia apenas R$ 79,7 bilhões — 11 pontos abaixo do limite de endividamento permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal, que é de 200% da receita total.

Trata-se de dívida equacionável, desde que o próximo governo economize durante um ano e meio toda a receita (incluindo receitas próprias, operações de crédito e transferências), sem gastar um centavo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Mas tem amigo e colega nosso que previu a derrocada do rio45 em janeiro de 2012, JT Palhares, após o foguete Marina, JT já não acreditava. Mas nós, sim!

Nassif: Como os santos protetores de Minas abandonaram Aécio




Luis Nassif

Aécio Neves não foi talhado para as grandes aventuras políticas. Essa vocação exige dedicação integral.

Nem sempre é necessário abdicar da vida pessoal. Em meio ao trabalho estafante de construir a nova etapa da indústria nacional e Brasilia, Juscelino Kubitscheck arrumava tempo para as serestas e para agradáveis encontros diários em final de expediente.

No gabinete parlamentarista, Tancredo Neves e San Tiago Dantas trabalhavam pesado até o final da tarde. Depois, trancavam-se na sala de um deles, abriam o uísque e relaxavam em boa companhia.
João Baptista Figueiredo dava escapulidas de madrugada. E Jânio Quadros fugia do turbilhão de Brasilia em um apartamento discreto do Rio, emprestado pelo amigo Julio Barbero. Na fase de maior pressão, que antecedeu a renúncia, ficou vários dias com uma das mais belas atrizes da história.
Mas, em todos esses casos, o exercício da política era a atividade central. O relaxamento era a hora do recreio.

Aécio inverteu. Herdou um nome e uma legenda e só recentemente pareceu abrir mão da vida pessoal. Antes, sua vida  havia sido um eterno recreio com alguns intervalos para a política.

Leia tudo!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O escritor JT Palhares retorna ao blog. Agora com o texto: Só os Radicais são Livres! Excelente leitura.

TENTAZIONI DE SANTO ANTÔNIO - Gottardo Ciapanna


SÓ OS RADICAIS SÃO LIVRES


Um povo é o rodeio da natureza para chegar a seis ou sete grandes homens. Sim, e para depois evitá-los.

Nietzsche


De acordo com o Princípio da Incerteza de Heinsenberg, é impossível se determinar a posição de um elétron; no máximo, o que os físicos quânticos podem fazer a respeito é calcular a probabilidade de sua trajetória. Quando desgarrado da partícula, além da incerteza de sua órbita, o elétron solitário passa a roubar elétrons das moléculas vizinhas. A molécula que perde um elétron reestabelece seu par roubando o elétron do vizinho, e assim sucessivamente -— dando origem aos radicais livres.

Também os radicais do gênero humano, mesmo rodeados de gente, estarão sempre solitários no seio da cultura. Os radicais livres do corpo manifestam-se em decorrência de uma vida desregrada. Do mesmo modo, os radicais da sociedade surgem em ambiente conturbado. Em lugar de uma vida recolhida, os radicais apresentam-se para a desgastante tarefa de revolucionar o mundo, transformando primeiro a si mesmos.

Se Jesus, o primeiro dos radicais, tivesse dado ouvidos aos Fariseus, provavelmente não teria morrido na cruz, e sim de velhice, pescando tranquilamente no mar da Galileia, como se deu no filme “A última tentação de Cristo”.

Nelson Mandela preferiu passar vinte e sete anos na cadeia a aceitar o regime do apartheid. Livre, divorciou-se da mulher e casou-se com a Presidência da África do Sul. Marx, que nunca trabalhou, revolucionou o mundo teorizando sobre as relações entre o Capital e o Trabalho. Morreu na miséria, sem nunca ter apertado o parafuso de uma máquina.

Ainda que um grande homem só apareça a cada cem anos, a receita para se transformar em um deles pode ser adquirida em qualquer banca de revistas. Procure algo com o título “Como se Tornar um Novo Homem”; se você for mulher, é só trocar o gênero do título.

Porém, o que distingue o homem de verdade de um artista que rebola na televisão é sua vontade inabalável. Para o homem, grande, médio ou pequeno, cada dia é uma batalha; o pior inimigo mora dentro de nós mesmos. Experimente traçar qualquer meta para sua vida, por mais idiota que lhe pareça ser, tal como parar de comer batatinha frita, deixar de fumar, emagrecer, abster-se de álcool, virar vegetariano, ou até mesmo promover uma cruzada contra a Coca-Cola, qualquer coisa em que você acredita: já dizia Sartre que “até a decisão de não fazer uma escolha é uma escolha”.

Para Nelson Rodrigues, todo líder era um canalha. E para comprovar sua tese, o anjo pornográfico propunha-nos a seguinte experiência: “– ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto”.

Steve Jobs foi um canalha, gênio da informática, líder empresarial ou apenas um chefe babaca? Difícil definir. Há versões para todos os fãs e críticos dos produtos Apple. Se todo líder é um canalha, o radical está mais para o tolo na colina: louco, ingênuo. A princípio, como se fosse um espelho refletindo a si mesmo, o radical não quer liderar ninguém, o radical não quer transformar o mundo exterior.

— Deixe tudo e me siga.

— Que garantia você me oferece? — perguntaria o homem comum ao Mestre.

— Se você precisa de garantia, procure no supermercado.

Disposto a buscar a raiz das questões, o radical abre túneis no subsolo de nossas certezas. Como se antevesse o que está por vir, inconformado com as explicações aclamadas pela tradição, a linguagem das palavras não lhe seria suficiente para explicar o mundo que ele traz em mente. Os radicais são visionários; expressam-se para atingir o inconsciente por meio da arte, música, gestos, parábolas, aforismos, ditirambos, fé, crença, amor e poemas. “No conformismo da Academia”, dizia Nietzsche, “nenhuma verdade completamente radical é possível”.

O mergulho na incerteza é alimento para o espírito livre. Como se dá com o elétron desgarrado da molécula, é difícil precisar o próximo passo do humano radical. Quantas vezes os seguidores de Ghandi imploraram para que ele se alimentasse?

Jejuando, o Mahatma dominava a si mesmo — domando seu egoísmo, disciplinando a própria vontade, ninguém poderia governá-lo, a não ser ele mesmo. Enquanto Freud baforava o seu charuto, o carretel de fumaça que embaçava o conhecimento da mente humana dissipava-se diante de seus olhos.

Seja na teimosia pacifista de um Mahatma, no naturalismo utópico de um Henry David Thoreau, ou na fixação sexual de um Freud, a diferença entre um grande homem e o homem médio é que o primeiro cultiva sua imperfeição ao extremo, enquanto o “normal” se envergonharia por não ser igual aos demais. Foi com gestos simples, o radicalismo da não-violência, e não por se adaptar aos termos propostos pelos ingleses, exortando o povo da Índia à resistência pacífica, fazendo sal ou tecendo as próprias roupas, que Ghandi torceu a espinha do Império Britânico.

A qualificação do que se enquadra como defeito ou virtude fica a critério dos padrões estabelecidos pelas castas dominantes: na interpretação moral dos fenômenos, a eterna luta entre Apolo e Dionísio. O mundo de hoje nos quer todos iguais: sarados, esquálidos, antenados, globalizados, belos e educados. Contudo, as personalidades veneradas da história, cada uma em seu tempo e à sua maneira, eram homens atípicos, trágicos, radicais ao extremo.

Tiradentes subindo os degraus da forca: um símbolo da liberdade tardia ou uma ameaça aos interesses da Coroa? Depende do distanciamento histórico, da necessidade do momento e dos Interesses de Estado, como, por exemplo, a morte de Tancredo Neves no dia 21 de abril de 1985 (ah, conta outra, Tancredo já estava morto quando sua morte foi anunciada, e Tancredo nunca foi um radical).

Nietzsche, que durante toda sua vida foi desprezado pela Academia, dizia ter um medo terrível de um dia ser declarado santo. Os radicais são tão odiados que normalmente são eliminados. Como as baratas. Foi assim com Ghandi, com Sócrates, com Cristo e com tantos outros menos amados.

Um homem que vive radicalmente incomoda muita gente; montado em um elefante, com um martelo na mão, destruindo todos os símbolos de consumo, o radical incomoda muito mais. Não fosse pelos loucos visionários, esse mundo cão não teria a menor graça. Se os radicais saíssem de suas tumbas, nós os assassinaríamos de novo, quantas vezes fosse preciso, “nada pessoal”, diria Capone. “São apenas negócios”.

Em nome da propaganda oficial — um símbolo para se fundar uma igreja, o slogan para uma bandeira, religião, o mote para fundar um partido político, uma marca de calça jeans —, o homem radical é mais útil para a Cultura depois de morto. Do alto de sua ironia, a Esfinge cospe um novo enigma: o homem morre e acaba ou cada morte individual é o melhor adubo para a vida da cultura? Morre o homem para passar a viver na eternidade do corpo e da cultura? Ou morre a cultura em cada corpo que se deteriora?”, questiona Cleide Riva Campelo em Cal(e)idoscorpos, um estudo semiótico do corpo e seus códigos.

Para servir de estátua, argamassa, pedra, alicerce na construção de um novo templo, as mudanças de paradigma requerem um novo homem. Contudo, para que o novo homem possa nascer, de forma que tudo continue como antes, não há outra saída: há que se encontrar um radical para ser executado.

No seio da Cultura, o novo homem já nasceu póstumo. Quantos Francelmos terão que atear fogo ao próprio corpo para que a preservação da flora e da fauna seja mais importante do que a instalação de usinas de álcool no Pantanal Mato-Grossense?

O mundo muda, mais pela visão dos radicais do que pela obediência dos normais. Só os radicais são livres.

JT Palhares em 24/04/2012

domingo, 15 de abril de 2012

JT Palhares: Os filhos do demo

JT Palhares continua a saga do texto A Casa da Senadora Joana
 
Os filhos do demo




A política é como o show business: você tem uma estreia fantástica, desliza por algum tempo e termina num inferno.
Ronald Reagan
Voltando aos bons tempos da FACUPLAC (Faculdades Arranjadas Corruptos Unidos do Planalto Central), a nossa turma era ótima. Tinha o João Noves-Fora, um sortudo que ganhou doze vezes na loteria, brilhante mentor da “Comissão do Orçamento” que viria a ser o protótipo do Mensalão. Ah, e o Grande Marcos Careca, que desde pequeno já o era. Não esqueço uma frase, escrita na lousa pelo inquestionável Professor de Filosofia da Arte de Furtar, Dr. Jader Ranário — aquele, cuja mulher pegou treze milhões de reais emprestados do BNDES (e nunca pagou) para construir piscinas para suas pererecas —, mas, vamos à frase: Qualquer grana que possa ser conseguida de forma escusa é indigna de ser obtida por meio do trabalho.
Marcos Careca não se conteve:
— Que absurdo, aclamado mestre! — discordou a brilhante cabeça, pensando nos batedores de carteira, nos traficantes, nos muambeiros e trombadinhas que exerciam o arriscado e trabalhoso ofício de aliviar o bolso alheio do peso da carteira.
E as aulas de oratória? — aparteia-me a memória um ex-colega, discípulo do Padre Vieira, que vitimado por febre virtuosa entrou para a Ordem dos Franciscanos e morreu prestando serviços humanitários na África do Norte. Quanto desperdício! Diz a lenda que Demóstenes, o grande orador ateniense, para se obrigar a treinar um discurso enfurnava-se no subsolo de casa e raspava metade dos cabelos da cabeça. Disciplinado, Demóstenes só deixava o porão depois que os cabelos crescessem e/ou quando sua oratória estivesse perfeita. Contam que, um dia, inimigos levaram Demóstenes às barras do Conselho de Ética. Foi difícil encontrar um presidente para dirigir a sessão; cinco recusaram a relatoria. Depois de muito debate, a penosa tarefa foi entregue ao senador que estava mais próximo da morte compulsória.
A sessão foi histórica. Composto por quinze membros, dentre os quais treze estavam com a ficha mais suja na Justiça do que pau de galinheiro, Demóstenes safou-se com este paradoxo: "Provarei que sou inocente. Se eu estiver mentindo que sou inocente perante Vossas Excelências, modelos da falta de ética, então sou culpado e devo ser absolvido por falta de ética. Se eu estiver falando a verdade ao afirmar que sou culpado, então fui inocente ao me aliar ao bicheiro Cachoeira, porém, tendo em vista que o réu não pode ser condenado por ser inocente, então devo ser absolvido por excesso de ética. Em ambas as situações, se menti ou se falei a verdade, sou inocente da acusação de quebra de decoro, tanto quanto vós, que não fostes condenados para que não se esvaziasse o Conselho".
Demóstenes foi inocentado por unanimidade.
Adeamus ad montem fodere putas cum porribus nostrus. Ah, as aulas de latim, o tratamento respeitoso, como se estivéssemos no Senado Romano. Quanta cortesia entre os colegas: “Vossa Excelência é um excelentíssimo filho da puta!”. Ao que o nobre parlamentar replicava: “Dê lembranças à vossa mãe, quando vós a visitardes na zona do baixo meretrício”.
E as aulas de medicina legal: quanta ilegalidade praticávamos! Muito úteis para aprendermos a eliminar as pistas dos assassinatos que todo político está sujeito a cometer no curso do mandato.
Bismarck e as salsichas. As salsichas, como as leis, são feitas de todo tipo de carne, principalmente das menos nobres. Para conhecer de perto a elaboração das leis, ao final de cada semestre os alunos visitavam uma fábrica de salsichas, oportunidade imperdível para se conhecer o processo de transformação dos votos em normas legais, começando pelo anteprojeto, passando pelas comissões, conchavos, superfaturamentos de emendas parlamentares e favorecimentos quando se embutiam no corpo da lei os artigos encomendados por meia dúzia de interessados —, até que a lei saísse limpinha na boca do CAIXA. A parte mais excitante da manipulação de leis era a oficina da fábrica, quando aprendíamos a arte dos grampos telefônicos, quebra de sigilo bancário, formação de Caixa 2, plantação de laranjas, instalação de microcâmeras, além da aula-bônus: “Como fraudar o painel de votação do senado. Ao término da cátedra, o educando, de quebra, estava apto a inserir modificações no texto de uma lei, mesmo depois de encerrada a votação da matéria.
Por fim, a experiência real com a Massa Falida, prática forense estudada no último semestre do curso, na cátedra denominada “Como enganar a comissão de ética”. Matéria divertidíssima, quando dançávamos, literalmente, no plenário! Quem não se lembra da Ângela Guaxinim? Pois bem, a parte mais sofrida da cadeira consistia em meter a mão na massa, mas antes tínhamos que estudar bem a receita, pra depois encontrar o ponto ótimo para se assar a Massa Falida. Da visita participaram o Roberto K. Jeca, o Larga O’Meu Queiroz, o Dudu Azedo, o Menino Malufinho, o Deflúvio do Nariz Suado, o vampiro de Banco de Leite senador Horroriz, o Rei do Gado Renúncio Encalhado e o Zé Diz Que Deu, Diz Que Dá, Diz que Deus dará, e se Deus negá, como é que vai ficá, ô nega? — desculpem, acabei me empolgando com a música do Chico Buarque.
A empresa escolhida pela Comissão de Perguntas Imbecis foi uma pizzaria chamada “Congresso Nacional”. Com o Manual de Direito Comercial na mão, Roberto K. Jeca, o aluno mais curioso da turma, metido a barítono, com sua voz de cantor de cabaré perguntou ao dono do estabelecimento que compromisso acarretaria a pontualidade nos pagamentos e se a mesada seria paga antes ou depois das votações. O pizzaiolo ficou engasgado com tamanha afronta; emudecido, fez de conta que não tinha entendido que o aprendiz de mafioso estivesse a lhe exigir propina. "É a crise econômica", justificou-se Queiroz, batendo nos ombros do dono do estabelecimento.
Enquanto alguns procuravam desculpas esfarrapadas para a compra e venda de votos, o aluno Marcos Careca entrou sorrateiramente pelos fundos da pizzaria. Na cozinha do restaurante havia uma mesa enorme e suja. E em cima dela, um monte de massa de trigo espalhada, tomates podres, mussarela embolorada e uma mala das grandes, contendo milhares de notas de cem reais amassadas dentro de cuecas usadas, camisinhas usadas, pimentão, ovos gorados e cebolas vencidas: de tudo exalava um cheiro podre, de arder as narinas, mas ao redor não se via um mísero cozinheiro. O proprietário seria o único funcionário, a quem, depois de liquidados os créditos trabalhistas e tributários, nada restara, exceto as dívidas — concluíram os estudantes, anotando os cifrões, entusiasmados, em seus Moleskines.
Nisso, saindo do banheiro, entrou na cozinha o ajudante do mestre-cuca. Deflúvio do Nariz Suado, vendo que se tratava de um ex-colega de partido, chamou-o pelo nome. Os curiosos arregalaram os olhos, espantados:
— Meu Deus! Será o Jezuíno?
Jezuíno fora aluno da Facuplac, expulso recentemente por causa do furto de cuecas da Lavanderia de Dólares. Zé Diz Que Deu foi o primeiro a experimentar o sabor da massa fedida:
— O que é isso? Hum, parece bom — disse o caipira do interior de São Paulo, lambendo os beiços.
— Sai daí, Zé. Sai logo daí, isso vai dar merda! — aconselhou Roberto K. Jeca, apontando a falange direita para o colega, em tom de ameaça.
Zé Diz Que Deu, fazendo cara de deboche, manteve uma expressão de quem não estava nem aí para a rabiola, mas no fundo sabia muito bem do que RKJ estava falando.
— Se fosse comigo, eu não saía. Eu dou um boi pra não entrar numa briga, mas quando entro dou uma boiada pra não sair! — intrometeu-se o Renúncio Encalhado.
— Pois eu já tô de partida. Prefiro perder uma teta do que a vacada inteira — revelou o vampiro de banco de leite, vulgo Horroriz.
— Será que a massa está falida? — perguntou Deflúvio do Nariz Suado, com a testa suada também; lá dentro fazia um calor dos diabos.
— É claro! Ocê num tá vendo, sô? — detonou o Careca, metendo a mão na massa e atirando a merda no ventilador de teto. Foi uma gritaria geral. Notas de cem pratas voaram pra tudo quanto é lado. Todos tentaram fugir, mas o fedor era tanto que emporcalhou a alma dos nobres aprendizes de pilantras até a terceira geração.
Dudu Azedo, um dos mais sensíveis, chegou a vomitar, dizendo ter sido enganado pelo Valfrido, enquanto o Marcos Careca rolava de rir pelo malfeito. Horroriz, fazendo cara de espantalho, gargalhava à tripa forra, e, usando luvas, esfregava a merda na cara do Encalhado:
— Você não quer ser Presidente do Senado? Então! Há que meter a mão na massa, nobre colega!
Larga O’Meu Queiroz quase teve um troço, chorava, limpava o terno com um lenço que tirou do bolso, enquanto se perguntava como ia explicar pra mamãe quando chegasse em casa com a roupa tão suja e fedorenta. Deflúvio foi mais esperto, e quando a coisa explodiu no ventilador ele já estava debaixo da mesa, escondendo os rastros dos "recursos não contabilizados". Zé Diz que Deu tentou sair de mansinho pela porta dos fundos, mas foi seguido por Roberto K. Jeca, que o acompanhou, propondo-lhe uma divisão da grana meio-a-meio. Do lado de fora, os dois quase chegaram às vias de fato, por causa de um pirulito comprado com o dinheiro que roubaram da Casa de Massas. A coisa foi tão feia que os dois viriam a ser expulsos da Faculdade.
— Não se assustem, colegas, essa massa não é de nada! Experimentem, por fora ela é fedorenta, mas por dentro é saborosa — discursava o Menino Malufinho em cima da mesa, tirando a gosma que lhe escorria pelo nariz adunco com um punhado de notas de cem reais como se fosse papel higiênico, que depois ele alegremente ajuntava dentro de uma sacola de supermercado. Malufinho lambia a merda como se fosse calda de chocolate, dizendo: — Vou levar um pouco para o beu filho!
O Menino Malufinho estava certo, o acontecido não representaria nada de grave em seu currículo. Tudo não passara de uma brincadeira de criança, ninguém pagou um centavo pelos prejuízos. E, quando perguntado sobre os milhões que escondeu debaixo do colchão, ele respondia: “Eu não roubei. Mas quem encontrar o dinheiro pode ficar com ele.”
O dinheiro da Pizzaria Congresso Nacional nunca foi recuperado. E ao final do dia, bastou um bom banho, com abundância de sabonete antiético, para que todos saíssem da Casa com as Mãos Limpas, prontos para outras estripulias.

Moral: no Direito, ao contrário do jogo do bicho, nem sempre vale o que está escrito

Trilha Sonora: Highway to Hell - ACDC

Nota: esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas, de carne e osso, são meras assombrações que povoam a mente do autor.

JT Palhares em 15/04/2012

NR: Comente pelo gmail no próprio post ou aqui.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

JT Palhares: A casa da Senadora Joana


JT Palhares, escritor, colabora com o blog.(mais JT Palhares: 1 e 2)

A casa da Senadora Joana


Se você agir sempre com dignidade, talvez não consiga mudar o mundo, mas será um canalha a menos.
John F. Kennedy



O primeiro decoreba a gente nunca esquece. Alguns marcaram tanto a humanidade que parecem ter sido cunhados sob medida para os corações puros dos neófitos, como este: Jurisdição é o poder que tem o Estado de dizer o direito. Parece bobagem, mas rios e rios de sangue foram derramados até que o homem chegasse a conceito tão arrebatador.
Para que os súditos conquistassem o direito de ir e vir, e de retornar à Casa da Mãe Joana, muito cuspe foi lançado das tribunas populares. Milhares de cabeças rolaram em nome do direito sagrado de falar quando nos for conveniente, ou de permanecermos em silêncio para não ter que contar mentiras deslavadas perante a Comissão de Perguntas Imbecis da Câmara (CPI).
Para sorte dos formandos da FACUPLAC — Faculdades Arranjadas Corruptos Unidos do Planalto Central —, a Teoria Geral do Processo Culinário foi condensada em uma receita de pizza. Até hoje a massa é a mesma, só varia o recheio, Zé Sarnento que o diga.
Sou bacharel em direito, turma de 2003, mas nunca exerci a advocacia. Não tenho saco para bajular juiz. Indicado por um amigo, ingressei no quadro de funcionários fantasmas do Legislativo Federal.
Atualmente, presto serviço para quatro senadores, eleitos por estados diferentes. Opero nos bastidores, no mais absoluto sigilo. Para minha mulher e filhos digo que sou agente imobiliário com negócios em Brasília. Mas não é por que trabalho para a Casa do Espanto que me movo como um fantasma, e sim por causa do serviço espúrio que sou obrigado a fazer, e também pelo fato de ter sido nomeado por ato inexistente. Melhor ser um morto-vivo do que morrer assassinado! No mais, não tenho do que me queixar; com os R$ 52 mil que recebo por mês dá pra garantir o leite das crianças.
Duas vezes por mês venho a Brasília para receber meu pagamento, sempre em dinheiro vivo. Na última vez que estive no Planalto Central, testemunhei uma cena lamentável. O fato aconteceu na Casa da Senadora Joana, boate servida pelas garotas mais lindas do cerrado, estabelecimento requintado, onde bebe-se do melhor champagne, come-se as melhores carnes do mercado e joga-se a valer o dinheiro do contribuinte.
Eu estava em um canto escuro, negociando verbas públicas com uma francesa no colo, avião indomável que eu tentava comprar sem licitação. Vocês sabem como são as mulheres, sempre relutam em transferir tecnologia, a não ser em troca de vantagens monetárias. Não sei como a coisa começou; já havia tomado meia garrafa de uísque paga pelo Erário. Em meio à discussão sobre comissão de obra superfaturada, ouviu-se um revirar de mesas, barulho de copos quebrados, mulheres correndo e gritando, e o Senador Demole Torres, conhecido como Filho do Demo, sacou de uma pistola Glock e disparou cinco tiros; um deles acertou o braço do Bicheiro Cachoeira.
Não foi difícil abafar o busílis, a segurança da Casa da Senadora Joana é feita pela Polícia Legislativa, portanto não haveria necessidade de processo, perícia, queixa crime, nada dessas bobagens que tiram o sono das pessoas comuns. Mas, como diria o Zé Sarnento, um senador da república não é uma pessoa normal, de modos que utilizamos o helicóptero do Corpo de Bombeiros para remover o mais rápido possível o Bicheiro Cachoeira para uma clínica particular.
Eram quase seis da matina quando cheguei ao apartamento funcional, crente que tudo tivesse sido resolvido.
Uma semana depois, num domingo, eu já estava em minha residência, a mil e duzentos quilômetros de distância da Capital Federal, quando a “manchete” que nós do submundo de Brasília já conhecíamos desde os tempos em que Oscar Niemayer fumava cigarro com piteira foi trombeteada no Programa “Fantástico”: Torres atuava como satélite do Capitão Cachoeira no Senado, intermediando alterações em projetos de Lei, repassando informações privilegiadas, antecipando-se a operações da Polícia por meio de uma rede de espiões; intercedendo em nome do amigo bicheiro junto aos Tribunais Superiores; usando do prestígio de Senador da República em prol das atividades criminosas do “Senador Cachoeira”.
Segundo a Revista ISPIA SÓ!, o Senador Torres teria recebido US$ 2 milhões em subornos provenientes de esquema de jogo ilegal montado por Cachoeira, além de possuir linha exclusiva para falar com o bicheiro (um telefone Nextel com criptografia de voz para escapar dos grampos da Polícia Federal). Torres, o demolidor da corrupção, algoz do Partido dos Trabalhadores, foi pego pela operação Monte Carlo, falando pelos cotovelos. Caiu como um prédio em ruínas.
No meu tempo de estudante, isso jamais aconteceria: um senador nunca passaria a perna no colega. Seguíamos à risca a ética do Mercado da Corrupção: você protege seu contratante da Iniciativa Privada e ele te protege dentro da Administração Pública; evite aparecer; melhor um contratinho aqui, outro ali, do que chamar a atenção e ser engolido por um tubarão.
Até hoje, faço questão de ensinar isso aos meus filhos…
Nota: esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com pessoas vivas, de carne e osso, são meras assombrações que povoam a mente do autor.

JT PALHARES em 11/04/2012