Educação tem o poder de nos transformar
Leonardo Koury Martins*
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| Ilustração de Edgar Vasques -imagem web |
Uma educação libertadora, pressupõe, no conceito mais amplo, perceber, assim como Paulo Freire, que ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. É preciso construir no dia a dia do mundo uma verdadeira possibilidade de perceber o outro nas suas diferenças pois, se falamos em autonomia e vivemos no coletivo, somente poderíamos viver de forma harmônica se nossa liberdade não nos levasse à prisão, seja ela de forma concreta ou no silêncio do não dito.
Na formulação mais ampla que se atribuiu ao sentido político e pedagógico da educação, a dimensão humanista e criadora de novas possibilidades nos deu as experiências do espaço educativo aplicadas à possibilidade de perceber o quanto é perigoso apenas a teorização dessas perspectivas educadoras, que para alguns campos trouxe apenas a linguagem do politicamente correto. O dizer que se acredita em outras possibilidades pedagógicas apenas para esconder preconceitos e conflitos na busca positivista de um mundo sereno.
Dialogo sobre este papel de teoria e prática, pois acreditar em um modelo transformador de educação é construí-lo justamente com a movimentação do conflito, com a possibilidade da diferença quando essa diferença não a transforma em desigualdade, pois se esta possibilidade de diferença trouxe uma deformidade de condições é porque apenas vivenciamos em nossos discursos, o que não possibilitamos ao coração. Passaríamos assim como Raul Seixas na música “Por Quem os Sinos Tocam” a dizer que convencemos as paredes do quarto e dormimos tranquilos, mas sabemos que no fundo do peito não era nada daquilo, era apenas uma forma do tempo passar.
Continuando, conforme Raul Seixas, a explorar a música, “Por Quem os Sinos Tocam” trazemos a responsabilidade de, antes da aplicação do que chamamos de Projeto Político Pedagógico – PPP lembrando que o mesmo não se serve apenas para a Unidade Escolar, buscarmos um projeto societário que se permeia também pela educação. Devemos constantemente nos perguntar, por quem fazemos, para quem fazemos e com quem fazemos? Para que diálogo nesta perspectiva? e Essa perspectiva tem o compromisso de mudança ou de apenas manter o modelo de produção como está?
Se nosso planejamento e nossa ação servirem para a continuidade, nosso papel será, como Florestan Fernandes ressalta, aliado daqueles que exploram. Nesse espaço, a educação apenas será o lugar do treinamento e domesticação e não o da educação que desejamos que transmitisse, em seu cotidiano com o mundo, suas possibilidades revolucionárias de pensar o diferente. Sem a possibilidade de construir o novo, apenas nos cabe o estabelecimento da ordem vigente.
Uma educação que se permita ao mundo, deve ser além de humanista, para que ela não perceba apenas a humanidade como transformadora, porque em uma ótica ambiental, nossa construção enquanto humanas e humanos trouxe ao mundo em que vivemos mais degradação do que consolidação do papel educativo, a liberdade. É importante perceber que não simplesmente buscamos educar, mas vivenciamos a educação no dia a dia do mundo, este sim não pode considerar como educador ou educando apenas os seres humanos, mas todos os seres vivos que contribuem em algum momento com a construção da vida.
Essa educação para a vida tem que perceber nas possibilidades do todo a integralidade das relações que se formam no seu fazer coletivo; desejos de ordem individual ou coletiva se completam e não se priorizam.
Uma nova ordem societária deve ser pensada pelas vias da educação, não se pode ser concretizada se não percebemos a importância de olhar a educação não como possibilidade finalista de atuação, mas como parte de um processo em que percebamos que seres vivos ofertam, de forma individual ou coletiva, a possibilidade de uma construção do todo.
Afinal, dizemos o tempo todo que um mundo melhor precisa de Educação, porém que educação é esta? Para quem ela serve? Com quem ela se constrói? Ela está a serviço de quê?. Não acredito em uma educação que não provoque mudança.
Termino este pequeno pensamento, possibilitando, assim como Buda, uma grande reflexão que nos traz o concreto e abstrato nas nossas possibilidades de observar e possibilitar construções, pois apenas vivemos porque queremos a busca da felicidade, que me impossibilitou acreditar que possa ser apenas minha, pois não vivo sozinho no planeta. Esse pensamento retrata a seguinte expressão: Se as pessoas percebessem que a única realidade definitiva é a mudança, elas seriam mais felizes. Para que eles e elas sejam felizes temos que buscar uma educação para além de tudo já proposto, mas que se proponha a se construir na dialética pela vida.
15/05/2021 - *Leonardo Koury Martins é professor, assistente social e militante na Frente Brasil Popular. Post anterior.

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